Todo mito tem sempre um lado B, toda mulher é meio Leila Diniz, toda nudez não será castigada, toda medusa moderna sabe o que faz com o seu cabelo, toda cabeça pode ter muitas ideias, muitas cabeças pensam mais que uma.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Aquele sábado
Quartas-feiras deveriam ser dias frugais como cardigãs em tom de pêssego. O luto da segunda-feira já teria deixado a fase da negação e adentrado a fase da aceitação. Por outro lado, a euforia do final de semana ainda não teria motivos para se instalar. Apenas a rotina pálida, de sorrisos permitidos e respiração pausada.
Já os sábados, estes sim, deveriam sempre corresponder à expectativa das sextas, tal como as mães detestam frustrar os filhos em vésperas de Natal e Dia das Crianças. Sábados deveriam ser animados ao som de mil vozes gritando “vambora!”. Deveria ser lei. Todos os sábados tinham que ser ensolarados em dias de praia e com garoa paulistana em dia de cineminha em casa. Tempestades tortuosas deviam ser reduzidas a mera ficção científica.
Nas sextas-feiras – e eu já falei delas – devíamos ter direito a dormir o sono das ninfas, o sono das despreocupações, apimentado ligeiramente por uma ansiedade saudável, de quem mal pode esperar pelas alegrias que ‘ele’ trará. Ele, o distinto senhor sábado.
Tragédias deveriam ser expressamente proibidas de acontecer, de qualquer forma, mas ainda mais, quando se tem 30 anos e se está no auge da vida. Quando você pensa que tua vida já assumiu o caminho que escolheu e embala numa velocidade interessante para em breve já lhe trazer os frutos. Deveria ser punido com o exílio irreparável quem inventou as tragédias que vitimam pessoas inocentes, de coração puro e brilho no olhar. E mais: as pessoas que são tão amadas e causarão tanto sofrimento com sua ausência.
Deveriam ser crime tragédias que vitimam pessoas belas, jovens, talentosas, amorosas e saudáveis (e não quero ser fascista em relação a isso, tampouco me preocupo com os juízos de valor que possam fazer de mim enquanto escrevo isto), mas talvez sejamos mesmo mais greco-romanos do que sonhamos e os belos quando morrem... Ah... os belos... é como passar um rolo compressor num jardim de acácias ou demolir a Capela Sistina. Deveria ser alvo de punição uma tragédia acontecer na véspera de uma viagem, às barbas de fevereiro e num país como o Brasil!
Deveria ser proibido morrer quando existe outro alguém que ama tanto que este amor seria suficiente pra durar por toda a eternidade e nada nem ninguém nunca iria separá-los. Num mundo onde tantos não conseguem se entender... sim, separar um amor verdadeiro deveria ser proibido. Um amor tão grande que, solitária, como os pombos, não se importaria de morrer também e o faria se isso não traísse o próprio sentimento tão contraditório que é este amor.
Finalmente, e se não fosse mesmo possível evitar a morte, deveria haver lapso de humanidade com poder tal a não permitir que morressem longe da gente. Deveriam morrer afofados nos nossos braços, sentindo o bater do nosso coração a lhes dizer: “Estou aqui, te amo e sempre te amarei até te encontrar de novo do outro lado, não tenha medo”. Assim, do jeitinho que vemos nos filmes de Hollywood e do jeito que 99,9% das pessoas não vão morrer – sejamos realistas! É, eu sei... a verdade dói. Não existe nada de nobre ou elevado em corredores frios de hospital, com enfermeiros meramente fazendo o seu trabalho e tubos entrando aqui e ali, até você ser gentilmente convidada a se retirar e deixar seu amor ali, numa sala fria e no meio de pessoas que ele não conhece.
A verdade é a mesma que se encarrega de transformar segundas-feiras em algo de extraordinário. Elizabeth Taylor recebeu uma das peças de sua coleção, um conjunto de colar e brincos de diamantes da Cartier numa tranquila tarde de terça-feira à beira da piscina. E ali, molhada e de biquini mesmo, as experimentou, como quem compra uma canga nova em Boiçucanga. Morreu com 79 anos, numa frugal... quarta-feira.
Há quartas-feiras perplexas, sextas-feiras agonizantes e sábados com cheiro de morte, zunido de UTI de hospital, o irritante barulho de geladeira velha, e odor de crisântemos. Eu adorava o perfume dele, ele não cheirava assim. E tudo o que você sente é revolta. É desumano, ele não deveria estar assim! E o beijo? Eu o beijo, tentando encontrar resquícios do meu amor, do cabelo onde eu deslizava meus dedos, orgulhosa da beleza dele e de quem ele era. Da mão que me segurava com firmeza, do sorriso que me derretia e do olhar que me acalmava e protegia.
Fazer o quê? Há sábados assim, como os de hoje, 28 de janeiro de 2012, que lembram de outro sábado, o de 28 de janeiro de 2006. São sábados tristes, mas diferentes, porque o tempo os separa. O tempo jogou pra longe a loucura paralisante, o desespero, e até a falta de esperanças. Porque eu e você somos filhos do mesmo Deus, que renova as nossas forças e as nossas esperanças e nos leva a outros vales de rios revigorantes, pra nos restabelecer até o fim dos tempos.
Os dias em que vivemos juntos vão ficando pálidos, conforme eu me afasto nesta estrada chamada tempo e às vezes, para mim, chegam a parecer uma outra vida, um tempo em que eu não tive direito de viver, uma ilusão, uma perda de tempo, um sonho, algo irreal que eu não percebia que devia ser um conto de fadas e agora sim é a vida real.
E peixe como sou, algo que me debulha em lágrimas depois me esfria como uma brisa finlandesa até quase parecer que não sinto mais. Ando oito passos, volto dois. Ando mais 14 passos, retorno três. O resto eu não sei. É preciso saber? Desisti de entender. As coisas são como são. É bom que no caminho encontre quem me dê a mão e tenha flores para arrancar.
É bom tentar me fazer forte para encarar não apenas a dor, mas a hipocrisia das pessoas, que no funeral me diziam “você tem que seguir com a tua vida” e agora me olham com olhares de lobo se me sinto feliz ou refaço minha vida, como se isso fosse digno de reprovação e de falta de sentimentos. Descobri, com isso, que, para a maioria das pessoas, uma tragédia nunca é o bastante. Há sempre um meio de fazê-la mais estarrecedora. Há sempre uma maneira de sentar no Coliseu e assistir lá embaixo, na arena, a dor alheia agonizante e paralisante, até se transformar numa enorme poça de sangue. Parece exagero, mas ainda continuamos a ambiciosa, egoísta e falsa sociedade romana. A raça de víboras que crucificou Jesus Cristo. A nobreza que faz caridade pra se aparecer. As mulheres e homens bons com seus ternos Armani, óculos Prada e bolsas Victor Hugo, que no sorver de seu creme brullé destilam veneno ao narrar as tragédias alheias. Como cavalos de raça que se apressam pelo primeiro lugar no pódio, querem ser sempre as primeiras a contar, argumentando, é claro, o quão consternadas estão. E passe-me a calda de cerejas, por favor!
Não que ele não mereça. Ele é digno de toda a honra e de que mantenhamos sua memória viva, até que nasçamos para a vida após esta vida. Mas hoje, que me desculpem, seus amigos que o amaram sinceramente, e ele mesmo, meu amor, mas não postarei foto dele, como o fiz nos dias anteriores, quando este triste dia se aproximava. Escrever sempre é uma catarse, mas hoje não tenho forças e não quero vê-lo. Eu o verei outro dia. E todos os que o amaram verão. Hoje deixo aqui uma obra dele, uma visão que ele teve. E talvez, quem tiver tecnologia necessária, se é que isso já existe, poderá vislumbrar seu rosto no reflexo dos meus olhos.
E já ia me esquecendo... Claro: um bom final de semana a todos. Esforcem-se e sejam alegres. Que Deus nos proteja, nos dê sua paz e encha nossas vidas de regozijo.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Segundos
Quer saber a diferença que fazem alguns míseros segundos na sua vida?
Meu marido é armênio. Como todo armênio é sensível à história do genocídio e principalmente ao fato de o mesmo ser negado até hoje pelo governo turco. Mas, prático e calado, raramente fala desses assuntos. Levou, por isso mesmo, anos, para que esse detalhe de sua história fosse a mim relatada.
Com 30 anos, ele obviamente não viveu aquela época. O genocídio armênio aconteceu entre 1915 e 1918. Mas sua vida e a minha foram afetadas. Mesmo sendo uma cidadã brasileira, sem qualquer ascendência oriental, meu destino teria sido totalmente diverso.
Ocorre que, com apenas seis anos de idade, o bisavô do meu marido escapou de ser morto, num dos assassinatos em massa empreendidos pelos soldados turcos.
Presos e mortos primeiramente os pais de família, mulheres e crianças eram transportadas ao deserto da Síria, país que na época também estava sob o jugo dos turcos. No caminho, não havia comida e qualquer aldeão que lhes alimentasse também poderia ser morto. No comando, eram escaladas gangues de curdos. Alertados pelo governo da Síria de que eles não sobreviveriam a uma jornada tão longa até o deserto sírio, sem alimento, os soldados passavam, então, a eliminar os armênios, entre eles mulheres e crianças.
Um a um, as gargantas de todos eram cortadas. Por vezes, crianças sobreviviam, órfãs e com as costas machucadas. Quando os soldados esfaqueavam as mães, estas protegiam os pequenos. A lança varava o corpo da mãe, atingindo parte do corpo da criança, que ficava encolhidinha entre o corpo da progenitora. Os soldados pensavam que estavam todos mortos e, assim, sobreviviam alguns.
No caso do bisavô do meu marido, quando ia ter a garganta cortada, eis que um soldado grita. Ordena que já basta. Uma ordem proveniente do governo turco havia chegado. Cerca de 1,5 milhão de armênios já havia sido eliminada e estes, na visão dos turcos, já não representavam nenhuma “ameaça”.
Órfão e entre centenas de corpos, um garoto de apenas seis anos corre em busca de algo simples. Não casa, amiguinhos, brinquedos, nem pai, nem mãe. Apenas a possibilidade de manter-se vivo. O instinto de sobrevivência falando mais alto, sem tempo nem parar chorar.
Difícil imaginar que destino poderia ter se descortinado a uma criança nessas condições. Poderia crescer e tornar-se um psicopata, como poderia ter crescido e se tornado um cidadão de bem, como se tornou, gerando filhos, netos e bisnetos, entre eles das pessoas mais doces e amorosas que já conheci.
Vejo o poder de segundos libertadores. Alguns segundos mais e sua garganta teria sido cortada. Ele não poderia ter tido um bisneto chamado Ares Karasu, o atual amor da minha vida. O homem que me salvou de uma grande dor, de uma grande perda. A perda do meu marido falecido em 2006, vítima de um acidente automobilístico, da falta de responsabilidade de um motorista inconsequente.
Ares não poderia ter sido um marido melhor para uma esposa viúva, tão sangrada pela vida.
Compreensivo, nobre de espírito, compassivo, é certamente o homem que meu primeiro marido, que tanto me amou, adoraria que tivesse tomado seu lugar para cuidar deste velho flagelado de guerra: meu coração.
Acidentes, assassinatos, omissão. Somos todos, de uma forma ou de outra, vítimas de segundos fatais ou de segundos salvadores.
Então percebemos também que armênios, turcos ou brasileiros, somos, antes de tudo, seres humanos, tão diferentes em nossas culturas, mas tão iguais em nossos anseios, sentimentos, feridas e carências.
Podemos concluir o quanto a discriminação e a incompreensão não têm qualquer sentido e os pecados do passado, para serem perdoados, precisam, primeiramente, ser admitidos. Afinal, ele, o senhor tempo, continua rugindo, senhor absoluto de todos os destinos, e não sabemos quanto tempo ainda temos para fazer a coisa certa, quantas gargantas simbólicas ou literais ainda serão cortadas por culpa da nossa omissão, quantos pessoas maravilhosas iremos impedir de vir ao mundo porque não investimos adequadamente nos seres humanos que estão hoje à nossa volta.
Finalmente, quantos destinos serão alterados, quando tudo poderia ser infinitamente melhor? As respostas saberemos em breve, porque tudo é uma questão de tempo.
No momento, gosto de pensar que aquele menino correndo, rumo ao desconhecido, não salvou apenas a si mesmo. Salvaria, indiretamente, e 90 anos depois, a minha vida.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
O filófilo nosso de cada dia
O mundo nunca teve tantos pensadores ao preço de um. Assistir um filme por dia, dar pitaco nos enquadramentos e fazer referências a cenas de clássicos do cinema de vez em quando fazem de você, se não um cinélogo – se é que o termo cabe – um cinéfilo digno de um rótulo cult nas rodas de amigos, regadas a néctar de Baco.
A pressa é inimiga da perfeição, mas não ter defeito é um luxo que ninguém pode bancar. Os meios de comunicação pós-McLuhan desglamourizaram todo mundo. O sonho acabou: até em Hollywood se mostra o cofrinho.
Se a democratização da imperfeição torna os deuses menos divinos, também gritou um “passinho pra frente, por favor”, na primeira classe do Titanic. Vamos apertar, gente, que estão chegando mais “ófilos” que ilhas na terra de Aristóteles.
Se necessitas tocar nas chagas, Tomé, dê uma sapeada no Facebook, Twitter e outras redes sociais. Ninguém pousa serenamente a cabeça no travesseiro sem antes postar algo interessante, chocante, fofinho ou extasiante.
Em lugar de audiência, cada usuário mede sua popularidade pela repercussão das postagens, quantos comentários rendeu, quantas pessoas curtiram ou compartilharam.
Não é suficiente apenas viajar e conhecer um lugar incrível. Antes de desfazer as malas, ou até mesmo durante a viagem, é um prazer postar fotos do lugar e se sentir uma Adriane Galisteu na Revista Caras.
As festas também não são mais festas se não forem publicadas nas redes sociais. Tal procedimento é importantíssimo para que todos saibam o quanto você é querido. Olha quantos amigos você tem!
Nem tudo é mero brioche de Versalhes nessa corte virtual. As redes cumprem um importante papel de denúncia social, envolvendo mais a população em decisões importantes para toda a sociedade. A velocidade de propagação da informação traz em seu bojo espaço para sofismas e notícias não bem apuradas. Faz parte. Basta a cada dia o seu deslize.
Se a geração de Nelson Rodrigues fazia de tudo para zelar por sua privacidade, o jovem de hoje não liga muito para a superexposição e suas consequências, um terreno vastíssimo para a peneira das empresas, que utilizam as redes para seleção de candidatos, cruzando o que vêem com as informações oficiais contidas nos currículos.
Que maravilha as redes sociais! Se no passado a maioria chiava quando desafiada a redigir uma redação, hoje acha uma delícia se sentir um pouco poeta. Nas manhãs mais inspiradoras, compartilham o que sentem, seus valores, opiniões e indignações, mensagens otimistas ou chacoalhões, lembrando até fatos históricos que marcaram a humanidade.
Finais e inícios de ano são momentos cruciais. É quando as pessoas se sentem mais sensibilizadas. As redes superlotam de filósofos ou, num ousado neologismo, filófilos, sem-mestrado e sem-PHD.
Os que não foram abençoados pela pena de Camões parafraseiam. Dos parafraseados em língua portuguesa, talvez a campeã seja Clarice Lispector, que já disse por aí até o que ela nem sonhou dizer. Bom pra ela, que é plagiada ao contrário.
Para mim, entretanto, o mais delicioso é quando as redes lembram os aniversários. Você não tem mais que necessariamente lembrar do fulano. Não vai mais encarar expressões emburradas nem passar dias se desculpando. Entretanto, ainda estou tentado descobrir o mérito de se lembrar do aniversário de alguém porque o Facebook avisou. E aí são alguns segundos redigindo: “parabéns, muitas felicidades”, “ você é especial, continue assim”, “que seus sonhos se realizem” e coisas do tipo.
Que entrem as frases de pára-choque de caminhão, filosofia barata, afetação, informação, surpresa, diversão. Logo será politicamente incorreto dizer que eles não podem desfrutar da mesma seara de Carlos Drummond de Andrade.
Nossos filófilos, os filósofos sem diploma das redes sociais e blogs, na mesma linha dos enófilos que, sem nunca ter pisado numa faculdade, nos deliciam com suas pérolas emprestadas enquanto visitamos sua adega de vinhos, são um alívio, um soco no estômago da chatice institucional, dos senhores feudais e seus 90% de analfabetos, do manequísmo dos perfeitinhos bonzinhos perseguidos pelos mauzinhos. São de uma sinceridade cortante quando esfarelam nosso mar de ilusões e mostram quem realmente são, mesmo quando escancaram seu lado mais vibrante e elevado. Sirvo-me dessa taça sem medo. Não há suspiro de insinceridade que resista ao décimo gole.
Quem nunca deu uma espiadinha ou extravasou seu lado filófilo que atire a primeira pedra. Em tempo, e para não perder a prática: “Quem está ao sol e fecha os olhos começa a não saber o que é o sol e a pensar coisas cheias de calor/Mas abre os olhos e vê o sol e já não pode pensar mais nada/Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos de todos os filósofos e de todos os poetas”. Palavras de Fernando Pessoa. Gostou? Curta, comente, compartilhe.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Quando você se importa com a cidade?
Quando é que a gente se importa com a cidade onde vivemos? Quando precisamos dela. Quando nos identificamos com ela. Quando nos sentimos cidadãos. Quando somos tratados com respeito por quem está na administração e não somos vistos apenas como pagadores de impostos.
O caso é que aquela pessoa que não ‘precisa’ da cidade para sua realização pessoal não vai se revoltar facilmente com as injustiças. Milionários que exploram culturas tradicionalmente caracterizadas pelo monopólio e pela exportação, quando precisam comprar, vão aos grandes centros, também Europa.
Quando precisam viajar, vão de avião. Quando ‘andam’ pelas ruas, o fazem a bordo dos carros mais confortáveis. Se ainda assim o carro tiver qualquer problema, devido aos buracos, arrumar não é problema. Há dinheiro.
Se não há opções para os filhos estudarem, eles têm recursos para mandá-los estudar fora e depois os apoiarem para carreiras fora da cidade ou mesmo na administração dos negócios da família.
Para o lazer, não faz falta a cidade. Eles têm grana para viajar para onde quer que seja. As distâncias se encurtam quando se tem dinheiro.
Se a saúde pública não é de boa qualidade, se o posto de saúde não tem médico, se as especialidades médicas não estão a contento, é fácil resolver. Basta procurar qualquer grande hospital em outra cidade, Estado ou país.
Se a segurança não está lá essas coisas e a droga toma conta da cidade, eles são os menos prejudicados. Pagam segurança particular, se trancam em condomínios fechados com toda a segurança, investem em sistemas de alarme e monitoramento, entre outras providências que o vil metal é capaz de providenciar.
Falta de emprego lhes tira o sono? Que piada. Pois se eles estão com as contas bancárias atoladas de dinheiro e são capazes de garantir uma boa colocação para seus entes queridos e amigos próximos. Estando tudo bem na vizinhança é o que importa.
A cidade não tem vaga pra estacionar? E? “O que você deseja que eu faça com essa informação?” – eles diriam, com ar blasé. Milionário ri de problemas como esse. Porque rico não corre atrás, manda buscar. E como já foi dito antes, faz suas ‘comprinhas’ fora daqui. Milão, Londres e Paris não são o limite. Porque a Oscar Freire haveria de ser?
Calçadas esburacadas representando risco para as pessoas e principalmente a população idosa e mais carente? Ruim pra esses pobres coitados. Para os ricos, pisar numa calçada dessa é quase tão provável quanto pisar em Plutão. Eles percorrem a Piazza San Marco, as ruas estreitas da Provence e as calçadas efervecentes da Broadway.
Sistema de transporte público de má qualidade? Vou pular esse item, pois é mais do que óbvio onde eu quero chegar.
Falta de incentivo ao comércio local e à vinda de indústrias? Quem liga? Pois se eles são os donos das poucas grandes indústrias que existem. E estão com os olhos virados para fora daqui, não para dentro.
Pobreza e retrocesso que leva aos despreparo e à péssima qualificação profissional para o trabalho? Quem se importa? Ricos não. Eles trazem funcionários de fora, formados em universidades da Capital, com cursos no exterior. Quem tem que aturar o problema são os comerciantes da cidade, micros e pequenos empresários que sofrem pagando impostos, com a falta de estrutura da cidade e o descaso. E, como se não bastasse, ainda são ignorados justamente nos assuntos concernentes a eles. Mesmo sendo eles a maioria, ou seja, o setor mais expressivo na geração de empregos – duradouros, não sazonais – e um dos mais expressivos também no repasse de verba para a municipalidade.
Vemos dia após dia uma sensação de abandono, sentida principalmente pelos pobres da cidade e pelos microempresários, ou seja, por gente pequena. Pois aqui só vemos os extremos da corda: os muito ricos e os muito pobres, com raras exceções, além de uma classe média média se equilibrando no meio, como por um milagre.
Estão todos cansados, é verdade, com tanta palhaçada e desconsideração. Recentemente, uma senhora de 67 anos caiu numa calçada em frente ao Terminal Urbano. O Jornal do Comércio já havia noticiado em sua edição de novembro o risco que isso representava. E isso após meses e meses nessa situação, como se aquele pedaço da cidade – em pleno centro! – não existisse. Como é possível não enxergá-lo, estando ele em frente ao único Terminal da cidade, ao único Fórum, e próximo à Prefeitura e à Câmara!!!
Ficamos mesmo com a sensação de que os poderosos de Catanduva não precisam da cidade, não precisam ficar aqui, por isso não a enxergam. Sim. Literalmente não a vêem.
Precisamos urgentemente de mais gente que precise da cidade, de mais indústrias, de mais empresas que se fortaleçam e se propaguem. De mais ensino de qualidade e mais desenvolvimento para atrair profissionais e não para expulsa-los daqui com sua falta de oportunidades. Só assim teremos gente que vem para morar aqui, precisando daqui, e não de passagem, como vêm os cortadores de cana – trabalho insalubre, peregrino e de pouca rentabilidade.
Chega de injustiças e coronelismos. Chega de demagogias e provincianismo. Chega de fazer quem precisa da cidade se sentir um estrangeiro dentro da própria cidade. Essa população maltratada nunca vai se sentir estimulada a fazer nada pela cidade. Nunca será motivada a melhorar para crescer. Pois não há para onde crescer. Chega de fazer dessa cidade um lugar onde quem tem poder e dá as cartas só precisa do chão onde pisa para retirar os recursos que o farão pisar a quilômetros daqui. E depois ainda batem no peito, dizendo que “são daqui” e não são “forasteiros”, fechando, muitas vezes, as portas, para quem vem de fora ou é de fora do “círculo dos tradicionais” e quer fazer algo diferente e inovador. Eles não se importam porque não precisam. Se você precisa, importe-se!
terça-feira, 20 de setembro de 2011
As fofoqueiras sobreviveram

Se a inveja é uma merda, a fofoca é uma disenteria. Epidemia que, diferentemente da peste negra ou do sarampo, nunca foi controlada. Está sempre na ponta da língua de todos que têm uma para chamar de sua.
Já dizem que falaria bem melhor o mudo se sua atitude manifesta o que acredita. E ao menos não apurrinha ninguém. Mas fofoca só apurrinha se for o nosso nome que estiver fritando por aí.
E tem sido assim desde os tempos em que a serpente espalhou a primeira fofoca: “Ouvi dizer que Deus não quer que vocês comam do fruto desta árvore porque não quer concorrência”.
De Cleópatra, falaram horrores em Roma. Pois foram espalhar que ela, a deusa do Nilo, num arroubo de ostentação e orgias, triturou pérolas negras dos mares do sul numa taça de vinho e as bebeu. Dizem que era apenas um anti-ácido. De boca em boca chegou-se a Roma a fama de uma devoradora de homens, devassa, que não sabe se maquiar. Delineador preto carregado, como uma moura de além mar que nas terras brasis viriam séculos depois fugir da sina messalina numa terra de homens, onde ninguém fofoca porque a necessidade não deixa.
Não há fofoca que resista a uma grande tragédia. A fofoca se alimenta da mediocridade, mas não subsiste diante da calamidade.
A fofoca também conduziu os caminhos da independência do Brasil. O pai chama o filho num canto: “Andam dizendo por aí que vão proclamar a independência. Vai tu e proclama primeiro, antes que um aventureiro o faça”.
E assim, de fofoca em fofoca, germinamos. De um disse-me-disse insano florescemos, cultuando a futrica como nosso mais magistral esporte nacional. Coroando e depondo líderes com base na fofoca. “Dizem que comem criancinhas”. “Falam que tem uma amante”. “Afirmam de pés juntos que é ateu. Sequer um dia pisou numa Igreja, vê só”.
As fofoqueiras de Camille Claudel sobreviveram. Permaneceram incólumes às cheias do rio Sena e aos ataques de fúria de sua criadora.
Fofoqueiras sanguessugas. Vampiras vorazes que sobrevivem da energia alheia. Não pousam seu olhar sobre o horizonte. Curvam-se feito hienas em direção a sua carniça verborrágica. Em realidade, estão nuas e miseráveis, com seus traseiros gordos reluzindo como escudos e rostos obscurecidos pelo anonimato. E assim permanecerão, sem jamais serem desvendadas ou despertar a curiosidade dos outros. Seus olhares não hipnotizam, atraem pelo veneno que destilam, exalando um cheiro doce de néctar. São incapazes de um mergulho regenerador dentro de si mesmas.
Assim, elas resistiram até ao “sacrifício humano” empreendido por uma frágil e despedaçada Camille, quando estraçalhava os pedaços palpáveis de seus muitos fantasmas. Não podia suportar o próprio espelho esculpido em bronze, lembrando-a constantemente de que apesar de chama acesa fora reduzida às sombras. Precisava fugir de si mesma. Não suportava sequer falar de si própria. Não desejava apenas vender obras, mas aceitação. Não conseguiu. Nem da sociedade, nem dos pais, nem do próprio irmão a quem tanto inspirou. Por amor, aceitou ser esculpida e moldada, reduzida a musa, se doando, vulnerável, oferecendo o próprio pescoço, dissolvendo em meio à espuma de um mar de promessas não cumpridas e de expectativas desfeitas, no seu próprio sacrifício, até se imortalizar no singular.
As fofoqueiras subsistiram, coitadas, com seus traseiros anônimos, para sempre no plural, alimentadas por novas futricas. Quem as têm para se proteger do flagelo de si mesmo não precisa de roupas.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Crianças grandes
Ser criança é perdoar fácil. É brigar num segundo e no minuto seguinte passar o dedinho e ficar ‘de bem’. Ser criança é não pensar no futuro, só no passado. É viver perguntando: ‘de onde eu vim, mãe? – ou nem perguntar mais, só “googar” e pronto. Ser criança é se irritar com a pergunta insistente dos adultos sobre o que se quer ser quanto crescer. Mas crescer parece um sonho tão distante. O discurso da professora de que estudar é bom pra ter um futuro não é argumento suficiente pra tornar os estudos deliciosos porque criança não tem muita noção de futuro. Se pega um dinheiro na mão, raramente vai pensar primeiro em guardar no cofrinho. Vai correndo no mercado comprar chocolate.
Enquanto se é criança, essa impulsividade é até bonitinha. O problema é que, com raras exceções, nós brasileiros estamos vivendo num mundo de adultos infantilóides, principalmente no que tange à educação financeira. Parte da culpa é dos pais, que não educam seus filhos. Vivem encalacrados em dívidas, justamente porque seus pais também não os ensinaram. É um ciclo vicioso. Parte considerável da culpa é do governo, que nunca pensou no futuro.
Lemos nas notícias que o Brasil perdeu o equivalente a uma Bolívia só com desvio de dinheiro. As tarifas dos serviços essenciais à população são aumentadas, mas não se investe em infra-estrutura e lá vem apagão. Promove-se a gastança para fins eleitorais, com projetos populistas, e não reformas estruturais, e lá vai mais dinheiro para entupir o gargalo das contas públicas no futuro. Não vemos o povo muito preocupado com tudo isso, assim como não estão tão preocupados se terão como pagar as dívidas contraídas hoje.
Quem não se lembra dos anos 80, chamada década perdida? Lembro até do som das maquininhas famigeradas, a cada dia mudando o preço dos produtos. Ninguém sabia o que ia encontrar no supermercado no dia seguinte. A política econômica tumultuada a que os brasileiros estiveram sujeitos não os estimulou a pensar no futuro. Sobreviver àquele dia mal já era suficiente para erguer as mãos para o céu. E parte dessa mentalidade perdura até hoje. “O futuro a Deus pertence. Deus sabe o que faz. Deus escreve certo por linhas tortas”. Não. Deus não escreve em linha torta. O brasileiro é que sempre gosta de jogar para o andar de cima as responsabilidades que são dele. Seu individualismo só não é maior que sua vaidade e disso sabem as agências bancárias. Que ‘chic’ é ter um cartão na mão!
Reportagem do Globo Repórter mostrou que no Brasil já se formam as primeiras escolas de educação financeira, para brasileiros que, mesmo sendo pessoas de bem, se vêem mergulhados em dívidas simplesmente por deficiências no ensino tanto escolar quanto familiar. Perguntados sobre o pagamento da fatura mínima do cartão de crédito, se eles sabiam que no mês seguinte seriam incididos 10% sobre a quantia não paga no mês anterior, os cidadãos faziam aquela cara de pano de chão. “Ah... é? Não sei, não... aí tem que calcular, né? Os números... a gente não entende disso, não”. Aham... sim, tem que calcular. Não adianta fugir da escola. Não se pode deixar de ler só porque é chato. A mesma curiosidade que se tem pra comprar tem que existir pra aprender. Não gostou de um livro? Procure outro. Outro dia vimos nos jornais um exemplo de uma cidadã catanduvense de origem humilde que é recordista em livros emprestados na Biblioteca Municipal. Pois bem. Se um livro não te agradou, tente outro, e mais outro. Há livros e livros, assim como há filmes e filmes, mas a tela nos dá tudo mastigado e o livro nos instiga a imaginação, nos leva a pensar. Não foi isso que nos ensinaram tão sabiamente nossas professoras de primário cheirando a lavanda? A maioria delas hoje talvez não saiba ligar um computador, mas garanto que não fazem feio numa boa conversa e não passam vexame quando têm que redigir um texto.
Não precisa estudar pra ser o físico ganhador do Nobel, mas é preciso ter a mínima noção do que é percentagem, do que incide no seu orçamento, do que são juros. Ainda que você odeie matemática, como esta pobre jornalista que escreve este artigo, é preciso sim saber entender este mínimo mundinho matemático do qual todos dependemos e ajudamos a construir. Afinal, do calendário às notas musicais, passando pelo movimento e forma das nuvens no céu, tudo é matemática. Até as proporções do rosto de uma pessoa, aos teus olhos, considerada bela.
Talvez isso falte ao dia a dia escolar e familiar do brasileiro: tornar o ensino da língua e da matemática algo mais próximo da nossa realidade. Algo que não se confunde na lousa em equações x, y, z sem sentido, mas que façam parte do nosso cotidiano, como, por exemplo, quanto se gasta para comprar determinado produto nas diferentes formas de pagamento. Algo que não reduza a rica língua portuguesa a um amontoado de regras gramaticais chatíssimas até pra quem ama ciências humanas, mas que nos apresente a um mundo fantástico de palavras que nos emocionam, nos informam, aguçam nossa curiosidade, deixam-nos indignados, porque fazem parte da nossa vida, do que somos, porque nos ajuda a descobrir quem somos e o que podemos ser, porque nos leva a interpretar textos e, consequentemente, realidades.
Mas será que os professores sabem disso? Sabem o que são e o que podem ser? Duvido. São explorados, tratados como pano de chão pior que a cara de seus alunos no futuro. Estes vivem enredados em cantos da sereia do nosso mercado financeiro, gostam de fingir que são ricos, como Peter Pan numa Terra do Nunca, onde o futuro, aquele dia em que eu tenho que pagar, ou aquele dia em que não terei mais a mobilidade e saúde de sempre, nunca chegará. ‘E não terei de me preocupar com atendimento médico de qualidade, com aposentadoria, com o estudo dos meus filhos’...
E a história se repete no Brasil, um gigante adormecido, uma imensa Terra do Nunca, cheia de adultos que nunca crescem. Um país da promessa, onde esse dia, o futuro, nunca chega.
E a história se repete no Brasil, um gigante adormecido, uma imensa Terra do Nunca, cheia de adultos que nunca crescem. Um país da promessa, onde esse dia, o futuro, nunca chega.
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Dos clientes de Roma aos clientes de hoje
As palavras perdem significado e força. Desde que passamos a sentir um arrepio quando ouvimos aquela voz de alegria plastificada, num exaustivo fim de tarde regado a telemarketing, começamos a desacreditá-las. Ou quando uma carta de uma nova loja se dirige a você como um velho amigo de infância.
Palavras prevaricam no leito da promiscuidade verborrágica, quando expressam carinhos que não existem e sentimentos que se dissolvem. Palavras se transformam em desavergonhadas messalinas. Escravas ao bel prazer do diálogo dos homens, nem sempre o das academias de letras, podem estar sob o jugo das lavadeiras, as mesmas que fervilhavam feito vermes nos cortiços dos romances realistas. A língua é uma hippie dispersa, uma cortesã perversa. Muda como o vento e as correntes marítimas.
A palavra anedota é um exemplo. Hoje seria o mesmo que uma piada, mas originalmente servia para designar algo inédito. A palavra ‘assassino’ vem do árabe haxaxi. Na época das Cruzadas, os chamados hachachis consumiam hashish antes de investirem sangrentos ataques contra os cristãos.
E o cliente, de onde vem? Fontes nos levam ao latim ‘cliens’, que por sua vez nasceu do “cluens”, do verbo “cluere”, que significa “ouvir, atender, obedecer”. Durante a República Romana, ricos falidos se colocavam sob a proteção de um poderoso. Quando este saía à rua, era cercado por um bando de ‘clientes’, que muitas vezes estavam apenas atrás de um pouco de comida. O ‘cliente’ não passava de um plebeu sob a proteção de um nobre. Um legítimo “puxa-saco”. Com o tempo, o sentido da palavra foi mudando. Primeiramente, para “aquele por quem um advogado age”. Tempos depois, para “aquele para quem um serviço é prestado”, para finalmente se tornar o que é hoje: a razão da existência de qualquer negócio. O cliente passou a ser paparicado.
Como num daqueles mistérios nebulosos que só as lendas de Avalon e as operadoras de telefonia conseguem sustentar, houve uma época em que ligações telefônicas para um hospital caíam por engano no meu local de trabalho. Certa vez, atendi um vendedor de produtos hospitalares. Se meu ouvido fosse diabético, o tom de voz açucarado teria me deixado surda. Desfeito o engano, ele se tornou ríspido e desligou rapidamente, sem ao menos se despedir.
O Dia do Cliente, comemorado neste mês, é propício para reflexão. Como o cliente quer ser tratado? Com a secura de asfalto anti-derrapante ou com o melado da fantástica fábrica de chocolate? A resposta é: nem um, nem outro. Não há nada de errado em se ter o interesse em vender, mas bom senso, educação e boa vontade são atributos que deveriam ser incorporados por todas as pessoas. O cliente prefere ser atendido por alguém natural, com empatia para perceber suas necessidades, solucionando-as com eficiência, a um vendedor que o atende com simpatia forçada. As pessoas não são iguais. Atendimentos também não deveriam ser. E atendimentos também mudam com o tempo. Assim como as palavras. Hoje, com o crescimento das vendas online, o cliente é um profundo conhecedor do produto, não quer perder tempo e adora ser surpreendido.
Estratégia de venda não tem nada a ver com falsidade. Ninguém precisa ser “puxa-saco”. O cliente porque já o deixou de ser há seculos. E o vendedor porque é, acima de tudo, um profissional requisitado e desejado, quando pode ter a honra de atender não somente consumidores, mas clientes, com todo o significado que a palavra sugere nos tempos atuais.
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