terça-feira, 20 de setembro de 2011

As fofoqueiras sobreviveram


Se a inveja é uma merda, a fofoca é uma disenteria. Epidemia que, diferentemente da peste negra ou do sarampo, nunca foi controlada. Está sempre na ponta da língua de todos que têm uma para chamar de sua.
Já dizem que falaria bem melhor o mudo se sua atitude manifesta o que acredita. E ao menos não apurrinha ninguém. Mas fofoca só apurrinha se for o nosso nome que estiver fritando por aí.
E tem sido assim desde os tempos em que a serpente espalhou a primeira fofoca: “Ouvi dizer que Deus não quer que vocês comam do fruto desta árvore porque não quer concorrência”.
De Cleópatra, falaram horrores em Roma. Pois foram espalhar que ela, a deusa do Nilo, num arroubo de ostentação e orgias, triturou pérolas negras dos mares do sul numa taça de vinho e as bebeu. Dizem que era apenas um anti-ácido. De boca em boca chegou-se a Roma a fama de uma devoradora de homens, devassa, que não sabe se maquiar. Delineador preto carregado, como uma moura de além mar que nas terras brasis viriam séculos depois fugir da sina messalina numa terra de homens, onde ninguém fofoca porque a necessidade não deixa.
Não há fofoca que resista a uma grande tragédia. A fofoca se alimenta da mediocridade, mas não subsiste diante da calamidade.
A fofoca também conduziu os caminhos da independência do Brasil. O pai chama o filho num canto: “Andam dizendo por aí que vão proclamar a independência. Vai tu e proclama primeiro, antes que um aventureiro o faça”.
E assim, de fofoca em fofoca, germinamos. De um disse-me-disse insano florescemos, cultuando a futrica como nosso mais magistral esporte nacional. Coroando e depondo líderes com base na fofoca. “Dizem que comem criancinhas”. “Falam que tem uma amante”. “Afirmam de pés juntos que é ateu. Sequer um dia pisou numa Igreja, vê só”.
As fofoqueiras de Camille Claudel sobreviveram. Permaneceram incólumes às cheias do rio Sena e aos ataques de fúria de sua criadora.
Fofoqueiras sanguessugas. Vampiras vorazes que sobrevivem da energia alheia. Não pousam seu olhar sobre o horizonte. Curvam-se feito hienas em direção a sua carniça verborrágica. Em realidade, estão nuas e miseráveis, com seus traseiros gordos reluzindo como escudos e rostos obscurecidos pelo anonimato. E assim permanecerão, sem jamais serem desvendadas ou despertar a curiosidade dos outros. Seus olhares não hipnotizam, atraem pelo veneno que destilam, exalando um cheiro doce de néctar. São incapazes de um mergulho regenerador dentro de si mesmas.
Assim, elas resistiram até ao “sacrifício humano” empreendido por uma frágil e despedaçada Camille, quando estraçalhava os pedaços palpáveis de seus muitos fantasmas. Não podia suportar o próprio espelho esculpido em bronze, lembrando-a constantemente de que apesar de chama acesa fora reduzida às sombras. Precisava fugir de si mesma. Não suportava sequer falar de si própria. Não desejava apenas vender obras, mas aceitação. Não conseguiu. Nem da sociedade, nem dos pais, nem do próprio irmão a quem tanto inspirou. Por amor, aceitou ser esculpida e moldada, reduzida a musa, se doando, vulnerável, oferecendo o próprio pescoço, dissolvendo em meio à espuma de um mar de promessas não cumpridas e de expectativas desfeitas, no seu próprio sacrifício, até se imortalizar no singular.
As fofoqueiras subsistiram, coitadas, com seus traseiros anônimos, para sempre no plural, alimentadas por novas futricas. Quem as têm para se proteger do flagelo de si mesmo não precisa de roupas.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Crianças grandes

Ser criança é perdoar fácil. É brigar num segundo e no minuto seguinte passar o dedinho e ficar ‘de bem’. Ser criança é não pensar no futuro, só no passado. É viver perguntando: ‘de onde eu vim, mãe? – ou nem perguntar mais, só “googar” e pronto. Ser criança é se irritar com a pergunta insistente dos adultos sobre o que se quer ser quanto crescer. Mas crescer parece um sonho tão distante. O discurso da professora de que estudar é bom pra ter um futuro não é argumento suficiente pra tornar os estudos deliciosos porque criança não tem muita noção de futuro. Se pega um dinheiro na mão, raramente vai pensar primeiro em guardar no cofrinho. Vai correndo no mercado comprar chocolate.
Enquanto se é criança, essa impulsividade é até bonitinha. O problema é que, com raras exceções, nós brasileiros estamos vivendo num mundo de adultos infantilóides, principalmente no que tange à educação financeira. Parte da culpa é dos pais, que não educam seus filhos. Vivem encalacrados em dívidas, justamente porque seus pais também não os ensinaram. É um ciclo vicioso. Parte considerável da culpa é do governo, que nunca pensou no futuro.
Lemos nas notícias que o Brasil perdeu o equivalente a uma Bolívia só com desvio de dinheiro. As tarifas dos serviços essenciais à população são aumentadas, mas não se investe em infra-estrutura e lá vem apagão. Promove-se a gastança para fins eleitorais, com projetos populistas, e não reformas estruturais, e lá vai mais dinheiro para entupir o gargalo das contas públicas no futuro. Não vemos o povo muito preocupado com tudo isso, assim como não estão tão preocupados se terão como pagar as dívidas contraídas hoje.
Quem não se lembra dos anos 80, chamada década perdida? Lembro até do som das maquininhas famigeradas, a cada dia mudando o preço dos produtos. Ninguém sabia o que ia encontrar no supermercado no dia seguinte. A política econômica tumultuada a que os brasileiros estiveram sujeitos não os estimulou a pensar no futuro. Sobreviver àquele dia mal já era suficiente para erguer as mãos para o céu. E parte dessa mentalidade perdura até hoje. “O futuro a Deus pertence. Deus sabe o que faz. Deus escreve certo por linhas tortas”. Não. Deus não escreve em linha torta. O brasileiro é que sempre gosta de jogar para o andar de cima as responsabilidades que são dele. Seu individualismo só não é maior que sua vaidade e disso sabem as agências bancárias. Que ‘chic’ é ter um cartão na mão!
Reportagem do Globo Repórter mostrou que no Brasil já se formam as primeiras escolas de educação financeira, para brasileiros que, mesmo sendo pessoas de bem, se vêem mergulhados em dívidas simplesmente por deficiências no ensino tanto escolar quanto familiar. Perguntados sobre o pagamento da fatura mínima do cartão de crédito, se eles sabiam que no mês seguinte seriam incididos 10% sobre a quantia não paga no mês anterior, os cidadãos faziam aquela cara de pano de chão. “Ah... é? Não sei, não... aí tem que calcular, né? Os números... a gente não entende disso, não”. Aham... sim, tem que calcular. Não adianta fugir da escola. Não se pode deixar de ler só porque é chato. A mesma curiosidade que se tem pra comprar tem que existir pra aprender. Não gostou de um livro? Procure outro. Outro dia vimos nos jornais um exemplo de uma cidadã catanduvense de origem humilde que é recordista em livros emprestados na Biblioteca Municipal. Pois bem. Se um livro não te agradou, tente outro, e mais outro. Há livros e livros, assim como há filmes e filmes, mas a tela nos dá tudo mastigado e o livro nos instiga a imaginação, nos leva a pensar. Não foi isso que nos ensinaram tão sabiamente nossas professoras de primário cheirando a lavanda? A maioria delas hoje talvez não saiba ligar um computador, mas garanto que não fazem feio numa boa conversa e não passam vexame quando têm que redigir um texto.
Não precisa estudar pra ser o físico ganhador do Nobel, mas é preciso ter a mínima noção do que é percentagem, do que incide no seu orçamento, do que são juros. Ainda que você odeie matemática, como esta pobre jornalista que escreve este artigo, é preciso sim saber entender este mínimo mundinho matemático do qual todos dependemos e ajudamos a construir. Afinal, do calendário às notas musicais, passando pelo movimento e forma das nuvens no céu, tudo é matemática. Até as proporções do rosto de uma pessoa, aos teus olhos, considerada bela.
Talvez isso falte ao dia a dia escolar e familiar do brasileiro: tornar o ensino da língua e da matemática algo mais próximo da nossa realidade. Algo que não se confunde na lousa em equações x, y, z sem sentido, mas que façam parte do nosso cotidiano, como, por exemplo, quanto se gasta para comprar determinado produto nas diferentes formas de pagamento. Algo que não reduza a rica língua portuguesa a um amontoado de regras gramaticais chatíssimas até pra quem ama ciências humanas, mas que nos apresente a um mundo fantástico de palavras que nos emocionam, nos informam, aguçam nossa curiosidade, deixam-nos indignados, porque fazem parte da nossa vida, do que somos, porque nos ajuda a descobrir quem somos e o que podemos ser, porque nos leva a interpretar textos e, consequentemente, realidades.
Mas será que os professores sabem disso? Sabem o que são e o que podem ser? Duvido. São explorados, tratados como pano de chão pior que a cara de seus alunos no futuro. Estes vivem enredados em cantos da sereia do nosso mercado financeiro, gostam de fingir que são ricos, como Peter Pan numa Terra do Nunca, onde o futuro, aquele dia em que eu tenho que pagar, ou aquele dia em que não terei mais a mobilidade e saúde de sempre, nunca chegará. ‘E não terei de me preocupar com atendimento médico de qualidade, com aposentadoria, com o estudo dos meus filhos’...
E a história se repete no Brasil, um gigante adormecido, uma imensa Terra do Nunca, cheia de adultos que nunca crescem. Um país da promessa, onde esse dia, o futuro, nunca chega.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Dos clientes de Roma aos clientes de hoje

            As palavras perdem significado e força. Desde que passamos a sentir um arrepio quando ouvimos aquela voz de alegria plastificada, num exaustivo fim de tarde regado a telemarketing, começamos a desacreditá-las. Ou quando uma carta de uma nova loja se dirige a você como um velho amigo de infância.
Palavras prevaricam no leito da promiscuidade verborrágica, quando expressam carinhos que não existem e sentimentos que se dissolvem. Palavras se transformam em desavergonhadas messalinas. Escravas ao bel prazer do diálogo dos homens, nem sempre o das academias de letras, podem estar sob o jugo das lavadeiras, as mesmas que fervilhavam feito vermes nos cortiços dos romances realistas. A língua é uma hippie dispersa, uma cortesã perversa. Muda como o vento e as correntes marítimas.
            A palavra anedota é um exemplo. Hoje seria o mesmo que uma piada, mas originalmente servia para designar algo inédito. A palavra ‘assassino’ vem do árabe haxaxi. Na época das Cruzadas, os chamados hachachis consumiam hashish antes de investirem sangrentos ataques contra os cristãos.
E o cliente, de onde vem? Fontes nos levam ao latim ‘cliens’, que por sua vez nasceu do “cluens”, do verbo “cluere”, que significa “ouvir, atender, obedecer”. Durante a República Romana, ricos falidos se colocavam sob a proteção de um poderoso. Quando este saía à rua, era cercado por um bando de ‘clientes’, que muitas vezes estavam apenas atrás de um pouco de comida. O ‘cliente’ não passava de um plebeu sob a proteção de um nobre. Um legítimo “puxa-saco”. Com o tempo, o sentido da palavra foi mudando. Primeiramente, para “aquele por quem um advogado age”. Tempos depois, para “aquele para quem um serviço é prestado”, para finalmente se tornar o que é hoje: a razão da existência de qualquer negócio. O cliente passou a ser paparicado.
Como num daqueles mistérios nebulosos que só as lendas de Avalon e as operadoras de telefonia conseguem sustentar, houve uma época em que ligações telefônicas para um hospital caíam por engano no meu local de trabalho. Certa vez, atendi um vendedor de produtos hospitalares. Se meu ouvido fosse diabético, o tom de voz açucarado teria me deixado surda. Desfeito o engano, ele se tornou ríspido e desligou rapidamente, sem ao menos se despedir.
O Dia do Cliente, comemorado neste mês, é propício para reflexão. Como o cliente quer ser tratado? Com a secura de asfalto anti-derrapante ou com o melado da fantástica fábrica de chocolate? A resposta é: nem um, nem outro. Não há nada de errado em se ter o interesse em vender, mas bom senso, educação e boa vontade são atributos que deveriam ser incorporados por todas as pessoas. O cliente prefere ser atendido por alguém natural, com empatia para perceber suas necessidades, solucionando-as com eficiência, a um vendedor que o atende com simpatia forçada. As pessoas não são iguais. Atendimentos também não deveriam ser. E atendimentos também mudam com o tempo. Assim como as palavras. Hoje, com o crescimento das vendas online, o cliente é um profundo conhecedor do produto, não quer perder tempo e adora ser surpreendido.
Estratégia de venda não tem nada a ver com falsidade. Ninguém precisa ser “puxa-saco”. O cliente porque já o deixou de ser há seculos. E o vendedor porque é, acima de tudo, um profissional requisitado e desejado, quando pode ter a honra de atender não somente consumidores, mas clientes, com todo o significado que a palavra sugere nos tempos atuais.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

A morte precoce sem culpados

Toda morte precoce gera nos enlutados uma sensação inquietante que nos leva a uma busca irrefreável por culpados, produtos da imprudência, indolência, falta de preparo, de sensatez ou mesmo de amor. Se o morto é uma celebridade, deixa uma legião de fãs a chorar pela sensação de abandono. Mesmo que nunca tenham travado uma conversa informal com o famoso, sentem-se próximos, porque se identificam com a imagem de alguém que é sinônimo de sucesso.
            Ninguém quer se identificar com o feio, o fracassado ou com o eternamente em segundo lugar. Os eternos segundos lugares são execrados.
Da mesma forma como os prêmios de consolação não consolam ninguém, figuras públicas alçadas a posições de vitória são como uma catarse para todos os que desejam ser admirados pela ousadia.
Sadicamente, gostamos de vê-los em situações prosaicas ou até mesmo vexatórias. Vê-los mais humanos nos faz sentir mais deuses. Quando reduzidos a pó, assumimos nosso tom professoral. Gostamos de comentar, como uma forma de pegar carona no legado brilhante do morto louco.
A recente morte de Amy Winehouse, que de tão louca, para muitos, mais previsível do que precoce, causou comoção. Mesmo tão previsível, a morte causou uma pontinha de polêmica e levantou a tendência que as pessoas têm para o lado místico. Estão falando na maldição dos 27 anos, por ela ter morrido com a mesma idade de Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Kurt Cobain. Mas ninguém se pergunta com quantos anos morreram os milhares de vítimas jovens que as drogas levam todos os anos.
Eis aí o paradoxo. Se os talentos foram interrompidos tão cedo, deveriam continuar sendo invejados como símbolo de sucesso?
Mesmo não sendo um exemplo de vitória, Amy, como numa mensagem póstuma, afirmava que poderia não viver muito, mas ao menos viveria como queria. Ah... a promessa de liberdade e seu prazer sem culpa.
A maioria dos jovens quer tudo. Sempre à espera de um milagre, continuar vivo, não importando o que se faça, mas sem envelhecer, como os personagens bonitos do juvenil blockbuster Crepúsculo.
Só não envelhece quem morre jovem, perpetuando o mito. A morte precoce coroa os belos e talentosos com o elixir da juventude eterna. Teriam eles, então, se auto imolado para continuar no Olimpo?
Quando Marilyn Monroe se matou, eternizou-se o mito da conspiração para matá-la. Quando Michael Jackson morreu, as suspeitas recaíram sobre o médico que lhe prescrevia medicamentos. Também voltou à tona a infância difícil, com direitos a sopapos do pai durante os ensaios. Sobre Elvis, alguns afirmam que “não morreu”. Já Amy não morreu apenas. Já estava “morta” há muito tempo. Sentenciada tão precocemente que nos deixa árdua a missão de encontrar um culpado. Vão crucificar o pai, por ter assinado a autorização para liberá-la da clínica antes do tempo recomendado. Vão criticar para sempre o namorado bad boy que lhe apresentou as drogas. Vão diagnosticar que a fama era incompatível com sua personalidade. Vão dizer que a mídia a explorou. Não faltarão tentativas, mas todas elas murcham quando se constata que nós, meros mortais, somos deparados diariamente com situações parecidas. Nós, como os deuses loucos, também não temos pais perfeitos. Muita gente já teve um namorado canalhão. Experimentamos altos e baixos e gente que, não raramente, nos explora, a começar pelo governo.
Fica difícil encontrar mérito no desperdício do talento, porque todo talento é um presente. O que merece crédito e admiração é o que fazemos com ele. É preciso muita garra pra não se enterrar mais cedo que o previsto, com medo do futuro – coragem e sabedoria para envelhecer com dignidade e provar que se pode ser ainda mais feliz do que o mito. No fundo, todos nós queremos as duas coisas: sermos imitados e felizes. Nem sempre é possível, mas ser feliz já é suficiente para fazer anjos e deuses tremerem de inveja.
(Publicado no Jornal do Comércio, veículo de comunicação do Sincomercio Catanduva - http://www.sincomerciocatanduva.org.br/)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Será que não termos reis é assim tanta vantagem?

O casamento de Kate Middleton com o Príncipe William foi muito criticado por uma parcela menos deslumbrada dos britânicos, que achou um absurdo, em meio à crise, ter-se gasto tanto dinheiro com uma cerimônia daquelas. Alguns falam em 20 milhões de euros, somando-se o aparato de segurança montado para a ocasião.
Eu confesso que assisti ao casamento e sucumbi aos meus delírios pequeno burgueses, analisando com detalhes o vestido da noiva, a tiara linda de diamantes que reluzia. O casamento todo tão belo e tão milimetricamente organizado, a fofura da rainha, o orgulho de ser britânico, por parte dos britânicos, o ritual em si do casamento tão bonito e que apesar de toda a pompa ainda se podia sentir a paixão dos noivos.
Foi um espetáculo tão bonito que não me peguei pensando no dinheiro o tempo em que assistia, mas sim, o dinheiro há que se considerar.
Entretanto, em solo tupiniquim, ninguém se deu conta de que, em 2010, um político brasileiro, José Celso Gontijo, com esquemas de corrupção comprovados (foi pego pagando propina) gastou 10 milhões de reais no casamento da filha, conforme informações divulgadas pela revista Veja. Construiu um palacete inspirado no Palácio de Versalhes, onde a cerimônia aconteceu. E não há necessidade de explicar aqui os detalhes nababescos que devem ter rolado. O caro leitor pode imaginar. Pode imaginar inclusive a cafonice da ostentação (pois o primeiro casamento citado aqui no artigo ao menos era real de verdade). Agora esse negócio de fazer isso e aquilo inspirado no palácio da Maria Antonieta... Quando é que a nossa infeliz e fétida burguesia vai insistir nessa cafonice e parar de torrar nossos míseros reaizinhos de maneira tão frívola e corrupta, e ainda por cima tão ausente de criatividade e identidade típica de país colonizado?
Alguém protestou por aqui? Pelo jeito não. Se duvidar, até a revista Caras fez a sua coberturazinha (não averiguei).
Mas fica aqui o protesto até atrasado, mas ainda protesto.
No Brasil, não é difícil achar gente pra protestar pela liberação da maconha, pelo casamento dos gays ou até pelas vadias (pelo direito de continuarem sendo vadias, como se alguém estivesse impedindo). Mas como é difícil achar gente pra protestar por nossas prioridades menos individualistas, pelo que diz respeito a todos nós enquanto cidadãos e pelo que mais nos afeta, que é a roubalheira, os impostos que nos massacram, a tentativa de tolhar a liberdade de imprensa que pode piorar a nossa condição de arraial comandado pelo 'coroné'.
Tenho vergonha dos políticos que temos.
Antes ainda termos uma família real, mesmo que com metade do charme das famílias reais de Inglaterra, Mônaco, Suécia e etc, do que termos que sustentar mais de 300 famílias e de apadrinhados, que são os nossos políticos que estão em Brasília.
Eu ainda preferiria uma charmosa duquesa e seu colarzinho de pérolas a ter que ver a trupe de lula vexatoriamente vestida de caipira numa festa junina. Aparência de zé povinho, zé pobréu, quando a gente sabe que as moedinhas de ouro estão sendo é muito bem guardadas para as reais ocasiões. Zé Gontijo que nos diga.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A cultura do calote

            A inadimplência aumenta a níveis galopantes. Dados informados pelo SCPC Catanduva revelam um aumento de quase 55% nas inclusões, de janeiro a abril deste ano, em comparação com o mesmo período do ano passado. Problemas como o aumento do custo de vida, doença e perda do emprego são alguns fatores que explicam, mas também é muito comum a falta de planejamento.
            Em passeios pelas pequenas propriedades rurais da região Sul, uma das paradas é na propriedade de um antigo produtor de fubá. O neto do primeiro dono, que recebe os turistas, conta detalhes da vida de seus avós imigrantes. Se a nona precisava de xícaras novas, o nono não ia até o banco tomar dinheiro emprestado. Primeiro plantava, depois vendia, e com o dinheiro recebido, depois de comprado tudo que era básico, as xícaras eram compradas.
Não dá pra retroceder. As compras a prazo são uma realidade e muitas vezes até compensadoras e o meio mais fácil que muitos têm para adquirir um bem necessário. Mas não é com bom senso que muitos estão entrando em parcelamentos infindáveis, em contas que não conseguem pagar.
            O mau exemplo vem de cima, do governo que privilegia Carnaval, Copa e Olimpíadas, em detrimento da básica trilogia “educação, saúde, segurança”. É bom investir na cultura, principalmente na que atrai turistas, mas é incompreensível se pensar na promoção de eventos desse porte quando não se tem o mínimo necessário para a população do país.
            Segundo Romário, pra Copa acontecer, “só Jesus Cristo”. E palavra de Romário num assunto desses costuma ter o mesmo peso de um diagnóstico da boca de um grande médico ou de um atestado de cafonice vindo de uma fashionista. Torcemos para que esse caso seja como o do meteorologista – quase nunca acerta.
Com a desculpa de eliminar a burocracia e agilizar, tentaram fazer com que os orçamentos para as obras da Copa permanecessem em caráter sigiloso, o que facilitaria fraudes. Felizmente, a Imprensa cumpriu seu papel e pressionou o governo, fazendo Dilma voltar atrás.
            Incompetência e corrupção são as causas de nosso retrocesso. São incontáveis os maus exemplos de quem, por estar justamente no papel de administrador de nossos impostos, deveria ser o exemplo. E a falta de palavra é um defeito que não escolhe conta bancária.
            Temos que nos mirar nos bons exemplos, atuais ou do passado. Um dos que mais gosto é o do Barão de Mauá. Desde a infância pobre já trabalhador, o jovem Irineu Evangelista de Souza não foi anjo, nem demônio. Foi um homem que sempre achou um privilégio aprender com quem sabia mais e dele tirar o conhecimento para aplicar mais tarde nos próprios negócios, o que fez dele o homem mais rico do Brasil, no século 19, mais rico do que o próprio Império.
            Irineu foi vencido pela política retrógrada, escravagista e dependente do capital estrangeiro, existente no país da época e que perdura até hoje. Após ter decretada sua falência, em 1878, vendeu bens no Brasil e no exterior, até mesmo a casa e objetos pessoais, passando a viver num palacete alugado, para pagar seus credores. Em seis anos, quitou seu último débito. Em 30 de janeiro de 1884, tendo ele já 70 anos de idade, foi pronunciada sua sentença de reabilitação comercial. Irineu, o Barão e Visconde de Mauá, estava com o nome limpo.
            Ele entendia o bem que faz um bom nome e não perdia a esperança de que poderia se levantar, afinal continuava o mesmo empreendedor de sempre. Se naquele momento estava em dificuldades, poderia se reerguer, desde que não perdesse sua integridade. Ele sabia que o ouro é sempre ouro, estando dentro do mais refinado porta-joias ou afundado num lamaçal. Alguém, um dia, vai revirar na lama e ter uma bela surpresa.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

O Cartão

Ia se preparando para trincar seu sanduíche de rúcula com ricota, enquanto lia o jornal, quando o telefone tocou. Era como a sirene do internato onde havia passado a infância e que sempre interrompia suas ralas refeições.
Era lerdo para comer desde os tempos em que só dava pra ter mortadela no recheio. Sempre achou que as refeições deveriam ser sorvidas languidamente, como os aristocratas e suas uvas.
Mas aquele telefone tocando, justo naquela hora, era inoportuno como uma jaca servida num brunch.
Após um dia cheio no trabalho, estava faminto e com saudades de sua solidão, mas foi atender, movido pelo mesmo condicionamento que estufa de sementes as bochechas dos hamsters.
- Boa tarde, é um imenso prazer falar com o senhor.
Tinha o tom falsamente insuportável dos apresentadores de programa de auditório. Tentava ser íntima e estupidamente simpática como nem sua tia Cotinha que o adorava e morava em Santa Gertrudes do Passa Oito costumava ser quando lhe telefonava.
Por frações de segundos pensou: “Quem essa fulana pensa que sou? O Brad Pitt?”. Não. Frente a pessoas famosas, as reações são inesperadas. Alguns perdem a fala, gaguejam, falam coisas idiotas, depois dão um sorrisinho amarelo e pedem desculpas pela idiotice. Aquele tom não era assim.
Era um tom de “eu sei o quanto você é idiota, e por isso estou te ligando enquanto você tenta comer o seu sanduíche de ricota”.
- Boa tarde, senho...
- Noite.
- Perdão?
- É boa noite. Você está me ligando às 19h58, praticamente oito da noite. Pelo menos é assim que dizemos no Brasil, a não ser que a senhora esteja na Ilha de Páscoa.
- Não estamos oferecendo nenhuma promoção de Páscoa, senhor. Trata-se da incrível promoção de Carnaval, da qual o senhor foi o estupendamente felizardo em poder participar, senhor Amado... Amado Cordeiro, não é isso?
- É Rocha. Amado Rocha.
Odiava seu último nome. Sempre lhe conferia uma imagem resignada. Por isso, quando lhe perguntavam, dava o nome do meio.
- Amado Rocha Cordeiro, entendo...
- Sim, é isso mesmo, podemos resolver isso logo, por favor? Eu quero voltar pro meu sanduíche e pro meu jornal.
- Hoje é o seu dia de sorte, senhor Amado Cordeiro.
- Rocha!
- Pois é isso. Senhor Amado Rocha Cordeiro. Eu só estou tentando apresentar ao senhor as nossas incríveis promoções do nosso Banco. O senhor não precisa ficar nervoso.
- Eu não estou nervoso, só estou tentando terminar o meu jantar.
- Eu compreendo, mas com o cartão de crédito que disponibilizaremos para o senhor, o senhor poderá comprar muito mais que um belo jantar, poderá pagar em até 90 dias, e depois de sete anos terá direito a um desconto de 5% no carro que o senhor escolher, desde que seja da marca Enka La Kradu, End Vidado ou De Volvo Tudo, ops Turbo! Turbo! Eu quis dizer Turbo! Desculpe a confusão, senhor Cordeiro.
- É Rocha!
- Não precisa se irritar, senhor Rocha. O senhor devia ficar feliz! Já que o senhor mora no bairro... Qual é o nome do bairro do senhor?
- Por quê?
- Senhor, eu preciso do nome do seu bairro para que isso conste no meu cadastro, o senhor compreende? Não precisa se irritar. Nós gostamos do senhor.
- Eu não estou irritado! E vocês gostam de mim por quê?
- O senhor pensa que não deviam gostar do senhor?
- Não...
- Não?
- Não foi isso que eu quis dizer. Está bem. Vamos logo com isso. Eu moro no bairro Presidente Ferdinando.
- Perdão?
- Presidente Ferdinando.
- Eu não entendo, senhor.
- Eu moro no bairro Presidente Ferdinando.
- Mas nunca existiu nenhum presidente com esse nome.
- Oras, mas o que a senhora quer que eu faça? Foi o nome que deram a este bairro e eu moro aqui. Quer que eu invente outro? Que me mude? Que vá às ruas protestar? Que pinte a cara contra o Presidente Ferdinando que nunca existiu?
- Eu disse isso, senhor?
- Não.
- Eu apenas perguntei o nome do seu bairro e colaborei com uma informação histórica. Não entendo a razão de tanta irritação.
- Mas eu não estou irritado.
- O senhor tem certeza?
- TENHO.
- Está vendo? O senhor já se irritou.
- Está bem. Desculpe. Eu não estou irritado. Por favor, acredite.
- Ok, então eu espero que possamos terminar esta conversa civilizadamente, já que o senhor é muito importante para nós. Qual o nome da rua e número de sua residência?
- Pra quê?
- Pra que enviemos o cartão de crédito para o senhor.
- Mas eu não pedi nenhum cartão de crédito.
- Sim, claro que o senhor não pediu. Nós é que estamos dando, porque o senhor foi o incrível selecionado para a nossa promoção de Carnaval. Seu endereço, por favor?
- Eu não quero te dar meu endereço.
- O senhor está dificultando as coisas. Como é que eu posso mandar o cartão se o senhor não me der o endereço?
- Pois não mande.
- De maneira alguma. O senhor é muito querido para nós. Procuraremos na lista. Vejamos aqui... Cordeiro, Cordeiro...
- É Rocha!
- Senhor, seu último nome é Cordeiro. Eu não posso achar seu endereço se eu procurar por Rocha.
- Pois não mande! Eu não quero cartão de crédito algum. E eu não quero que o meu bairro mude de nome.
- Entretanto o senhor quer mudar o seu nome...
- Eu não quero mudar. Apenas prefiro que me chamem de Rocha. Eu não gosto de Cordeiro.
- O senhor é anti-semita?
- O quê?
- Anti-semita. Tem algum preconceito contra os judeus?
- Mas o que isso tem a ver?
- Eles comem cordeiro.
- Sim, comem, mas...
- Gostaria de informá-lo de que esta conversa está sendo gravada e que este conteúdo discriminatório será relatado às autoridades.
- Pelo amor de Deus, eu não sou nazista.
- Mas o senhor não quer o cartão de crédito que eu estou oferecendo e os principais acionistas deste Banco são judeus.
- Eu não sabia.
- O senhor não estava lendo o jornal?
- Sim.
- O senhor lê o caderno econômico?
- Sim.
- Assim fica difícil acreditar que o senhor não sabia...
- Desculpe, talvez não leia assim com tanta freqüência. É que eu ando meio confuso. Às vezes quando digo sim, quero dizer não. E quando não, é sim.
- Entendi perfeitamente. Isso quer dizer então que podemos enviar o cartão.
- Eu não disse isso.
- Mas o senhor acabou de dizer que quando diz uma coisa quer dizer outra. Assim fica difícil ajudar, senhor Rocha.
- É CORDEIRO!
- Como é?
- Ah! Você acertou! Sim, é Rocha!
- Está vendo? O senhor não sabe o que diz. Estamos encaminhando para o senhor o nosso cartão de crédito, combinado, senhor Rocha? Senhor Rocha? Senhor Rocha, o senhor está me escutando?
Foi achado dias depois, dependurado com os pés ao ar. No pescoço, o fio do telefone. Na escrivaninha, um bilhete: “Morro enforcado, tendo jamais me enforcado no cartão de crédito”. Na caixinha do correio, o cartão de crédito.