sexta-feira, 18 de maio de 2012

Onde nasce o preconceito?



Onde você nasceu? De que forma você nasceu? E de que forma nasce o preconceito? Para responder tais perguntas, defina primeiro a que geração você pertence. Você é Geração Coca-Cola, Geração Paz e Amor, Geração do Voluntariado ou da Geração dos Desclassificados? Se o preconceito brota de você, sua geração não merece sequer classificação. Porque o preconceito nasce do desconhecimento. Estranhamos e ‘desgostamos’ aquilo que não conhecemos. Se as pessoas fossem mais viajadas e mantivessem a mente aberta para as diferentes culturas, seriam tão mais interessantes quanto menos preconceituosas. De quebra, aprenderiam mais e contribuiriam positivamente para o crescimento do outro. Todos ganhariam com isso.
Não é de se estranhar que o preconceito encontre raízes fortes entre pessoas com nível educacional mais baixo. Mas também é possível ver gente rica e com curso superior agindo de maneira preconceituosa, porque não dá pra confundir conhecimento acadêmico com o verdadeiro conhecimento, com uma pessoa que pensa.
O preconceito é de todas as cores, credos, origens e opções sexuais. E para se distanciar ainda mais do objeto odiado, o preconceituoso se apega a estereótipos, fortalece ideias e mitos criados para enfraquecer a classe odiada. E assim germinam absurdos que ligam latinos a drogas, homossexuais à perversão, negros ao fraco desempenho intelectual e bom desempenho nos esportes, nordestinos à imagem do migrante pobre e inconveniente.
Para que este artigo não tenha 30 páginas, vamos nos apegar ao mais recente caso da estudante de Direito Mayara Petruso, punida pela Justiça pelas declarações preconceituosas contra nordestinos no Twitter.
Há muitos outros paulistas e paulistanos como ela, infelizmente. Como nordestina, sofri certo preconceito quando me mudei para Catanduva ainda criança, mas na época não se falava em bullying. Era tudo encarado como brincadeira, mas é uma brincadeira que acaba sendo divertida para quem a faz. Poucos procuram saber se a brincadeira está agradando quem é o alvo dela. No ano de 1983, houve uma severa seca no sertão nordestino – como aliás acontece de tempos em tempos e ninguém resolve – e a imagem do nordestino era vinculada à miséria, à carência e, claro, era tudo verdade, mas em vez dessa verdade suscitar maior interesse dos brasileiros de outras regiões pelos problemas que são do Brasil e não se restringem só a uma região, é mais fácil se manter ausente, como se aquilo fosse um outro país, e tratar as pessoas que vêm de lá quase como animais. Senão como animais, brasileiros inferiores, de certa forma, não como os brasileiros germânicos do sul. Cansei de ouvir declarações como: “Você é paraibana? Nossa... mas você é alta, tem boa aparência...”. Lembro que nos anos 80, alguns brasileiros sequer sabiam da existência de alguns lugares paradisíacos no Nordeste. Achavam que aquilo era só seca, que não tinha belezas. A barreira turística foi rompida, mas ainda há muita desinformação. E isso está profundamente ligado ao péssimo nível educacional do brasileiro, que desconhece seus próprios gênios, num país onde a bailarina do Latino é mais conhecida que um escritor do naipe de Ariano Suassuna.
E o escrito paraibano é apenas um entre tantos exemplos de nordestinos famosos, talentosos, inteligentes e bem sucedidos que vou elencar. Entre os músicos: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Moraes Moreira, Lenine, Raul Seixas, Pepeu Gomes, Zeca Baleiro, Fagner, Djavan, Hermeto Pascoal, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Chico Science.
Entre os escritores: Jorge Amado, Guimarães Rosa, Arthur Azevedo, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, José de Alencar, Nelson Rodrigues. Raquel de Queiroz.
Entre as modelos internacionais temos: Adriana Lima, Fernanda Tavares, Laís Ribeiro, Suyane Moreira, Emanuela de Paula, Bruna Tenório, Daniela Alves Rezende, Kamila Hansen, Simone Carvalho, Isabela Melo, Luciana Curtis.
Temos ainda o jornalista Assis Chateaubriand, os cineastas Cacá Diegues e Glauber Rocha, o poeta Castro Alves, o dramaturgo Dias Gomes, o sociólogo Gilberto Freyre, os atores Marco Nanini e Wagner Moura, o pedagogo Paulo Freire, o pintor Romero Brito e tantos outros.
Os nordestinos encontram-se em todas as partes do país, misturam-se a todos nós, brasileiros. Como é possível, então, que em pleno século 21, um povo tão notadamente reconhecido pela sua simpatia e miscigenação, seja preconceituoso para com quem vêm de outras paragens, em especial a região Nordeste?
Quais características de outras regiões fazem seus moradores sentirem-se tão diferentes? Curitiba, tão elevada à condição de capital europeia brasileira, têm amargado índices de criminalidade altíssimos. São Paulo, a cidade que nunca pára – graças em boa parte ao trabalho dos nordestinos – é uma cidade feia. Com partes bonitas, áreas desenvolvidas e onde se encontra de tudo. Mas, convenhamos, se compararmos com outros grandes centros do mundo, como Paris, Nova Iorque, Rio de Janeiro ou Fortaleza, São Paulo não tem grandes belezas que se destaquem em sua paisagem. E o caso aqui não é falar mal desta ou outra cidade, mas de se encarar a realidade. E talvez a mais gritante delas seja o fato de que muitos neonazistas que batem em nordestinos dobram a esquina e pedem uma tapioca com doce de leite. Porque simplesmente há milhões de paulistanos descendentes de nordestinos. Porque os paulistanos podem descender de qualquer um de qualquer parte do mundo. Porque São Paulo talvez seja a cidade mais brasileira do Brasil justamente por isso, por reunir numa só cidade pessoas com ascendências de diferentes etnias e regiões. A maioria de quem está lá veio de algum lugar e por isso toda sorte de preconceito se torna não apenas inaceitável como ridícula.
Outro ponto a se considerar é o de que, nos últimos tempos, a situação tem se invertido e muito. Não assistimos apenas a migração de nordestinos para a região Sudeste, mas também de gaúchos para a região Centro-Oeste e Nordeste, que está, por sinal, industrialmente em franca ascensão, impulsionada pelo pujante potencial turístico, e de brasileiros de todas as partes do Brasil para a região Norte, tão carente de diversos tipos de profissionais, principalmente os da área da Saúde. Vão atrás de oportunidades e colaboram para o desenvolvimento daquela região. É uma via de mão dupla.
Faço minhas as palavras da líder nordestina Francis Bezerra sobre a infeliz frase da tal estudante de Direito. Sobre esse tipo de gente, Francis diz assim: “São pessoas que não pagam aluguel, não têm compromisso com água, luz, alimentação. Não sabem o que é fome, o que é morar na rua. Então, têm tempo para isso. Recebem uma boa mesada e não têm compromisso com o País. Essa geração não é nem coca-cola, nem paz e amor. É uma geração que sequer tem classificação. Uma geração que tem pai e mãe que dão tudo. Essa geração é pobre de espírito, de cultura, de tudo. O Brasil está muito mal preparado para o futuro".
Estes mesmos brasileiros que agem como se nada dissesse respeito a eles, não gostam de ser tratados com desdém em países desenvolvidos. Então por que odiar alguém que mora no mesmo país, simplesmente porque ele não nasceu na mesma cidade ou região?
Afirmam que levas de nordestinos desestabilizaram a infra-estrutura de grandes cidades como São Paulo, mas por que odiar os nordestinos e não os governantes, por não terem colocado em ação políticas públicas suficientes para evitar esse êxodo e, consequentemente, o ‘inchaço’ populacional dessas metrópoles?
Concluímos que o Brasil está do jeito que está e é do jeito que é não apenas por culpa dos políticos, mas por culpa de toda a cultura de seu povo, fragmentado em diversos grupos sociais, cada um com uma visão não de Brasil, não do todo, não do que é melhor para todos, mas do que é melhor para o seu grupo, para sua classe social, para sua profissão, para seu grupo religioso, para os que compartilham da mesma opção sexual. Formam-se, então, clubinhos, que acabam não tendo a força que deveriam ter justamente por seu egoísmo, porque estão fragmentados e enfraquecidos pela limitação de suas aspirações em torno de interesses pessoais. E obviamente que quem leva a melhor sempre é quem pode mais.
A lei está aí e punirá a todos que forem idiotas suficientes a ponto de externarem seu preconceito bobo em redes sociais. E isso não deixa de ser um ‘cala a boca’ bem contundente.
Mas para calar de vez a boca dos preconceituosos, que saibam que preconceito nenhum nunca vai apagar esse brilho trazido para todo o Brasil e repercutido para o mundo através dos nossos brilhantes nordestinos, sejam eles famosos ou não, sejam eles artistas ou trabalhadores braçais incansáveis, que com sua força construíram cidades inteiras, em todas as regiões do País. Afinal, o sertanejo, o nordestino, como já dizia Euclides da Cunha, “é antes de tudo um forte”.

Adriana Moura (jornalista, escritora e nordestina natural de João Pessoa, Paraíba, com muito orgulho)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

A falta de iniciativa é a mãe de todos os fracassos


Dificilmente se pode achar um epíteto mais apropriado que “mãe” quando o que se tem em mente é alguém que age e não fica só de trololó. Mãe, aliás, ganha esse nome exatamente porque “fez”. E é dela todo o trabalho por algo pelo qual, a partir do primeiro ano, quem vai levar os parabéns é o rebento.
Quer quantificar o quanto uma mãe é a função que mais se aproxima do ideal de iniciativa? Imagine que, ao cometer um lapso no trabalho, como perder a hora, voltar um troco errado ou escrever um texto com erro de português, uma pessoa morre. Certamente se buscaria dormir com um despertador em cada borda da cama, conferir o dinheiro trinta vezes e matricular-se imediatamente num curso intensivo de Língua Portuguesa. Pois é esse estresse que acomete as mães, as quais, à menor distração, podem colocar em risco a vida de seus bebês, seres totalmente indefesos num mundo cheio de perigos. Aquela frágil criatura depende de muitas iniciativas maternas.
As mães não têm tempo a perder com discursos vazios. Elas devem colocar a mão na massa. De suas mentes, mãos e pernas depende o alimentar diário de seus filhos, bem como a higiene, a saúde e a educação, e tudo o mais que envolva a formação de um ser humano feliz, bem preparado e de bom coração.
Seria esperar demais? Às vezes sim, pois a vida tem seus mistérios e não é perfeita. Por isso mesmo, muitas vezes, a despeito do esforço materno, não é possível privar os filhos de momentos infelizes, muito menos impedir tragédias ou que o filho tome decisões erradas, prejudicando a si mesmo ou a sociedade.
Trabalho difícil o de ser mãe. Todo trabalhador recebe, ao final de cada mês, o seu merecido salário. À mãe compete se doar por amor, muitas vezes abstendo da própria vaidade em prol do bem-estar do filho. E para ela um beijo, um abraço, uma demonstração de carinho, por mais simples que sejam, não têm preço.
Muito se fala que as mães não precisam se anular. Elas conquistaram também seu espaço como profissionais, reservando um tempo para se cuidarem e mantendo-se belas e atraentes. E tudo isso é verdade. Mas também é verdade que para uma boa mãe vem sempre em primeiro lugar a felicidade do filho. Se todas as mulheres pensassem assim, poucas decidiriam se tornar mães. Porque ser mãe não é projetar suas frustrações, querendo se realizar nas conquistas do filho. Ser mãe é compreender que se deu vida a outro ser humano, com aspirações que podem ser totalmente diferentes das dela e, ainda assim, amar incondicionalmente, um amor que não visa o retorno imediatista e sim a formação do caráter.
As mães nos ensinam muito sobre compreensão, prioridade e iniciativa, algo que anda muito em falta. Vemos hoje em dia pessoas fazendo muitas tarefas ao mesmo tempo, muitas atividades durante o dia, satisfazendo seus egos, mas, ao final de um longo período da vida, o que elas realmente “fizeram”?
A sociedade está perdida em sua montanha de compromissos, andando em direções impostas, dentro daquilo que se configurou como certo ou ideal de sucesso e reforçando destinos infelizes a quem não soube identificar sua própria fórmula de felicidade para, a partir de então, viver a vida priorizando o que é realmente importante, com coragem e iniciativa para agir quando a vida pede mudança, com mais atitude e menos confabulações.
Recentemente, na fila de uma repartição pública, duas mulheres praguejavam, ao ver que, na sala lotada, todas as cadeiras estavam ocupadas, sendo uma delas por um par de sacolas. Uma delas cochichou, com muita raiva: “Essa é boa... agora sacola também senta?”. Eu, que tinha chegado alguns segundos depois delas e ouvi a conversa, diante da inércia das reclamonas, me dirigi até o assento. Não foi preciso nem pedir. Ao me ver, o rapaz educadamente colocou as sacolas no chão e eu me sentei, agradecendo. Talvez aquelas mulheres tenham pensado: “Puxa vida! Por que eu não fiz o mesmo, em vez de ficar falando mal?”. Certamente aquele rapaz colocou as sacolas no assento quando não tinha tanta gente e depois se distraiu. Mas muitas vezes nossa maledicência apática nos cega.
O caso citado é um exemplo muito simples de um fenômeno doentio que acomete muita gente: o praguejar vazio, seguido pela falta de iniciativa. Não adianta esbravejar se você não reclama com a pessoa certa ou no setor adequado, simplesmente para manter as aparências e evitar o confronto. De nada resolve criticar e até falar palavrão, se você não tem um plano para fazer a sua indignação exercer influência na mudança de realidades, seja individualmente, seja unindo-se a grupos de pessoas que compartilham do mesmo ideal para reverter injustiças.
O brasileiro precisa entender de uma vez por todas que não estamos mais sob os anos de chumbo da ditadura, que obrigava a todos a se calarem e engolir em seco toda revolta, guardando para si todo descontentamento. Precisa também deixar de ser individualista e fatalista, achando que nada resolve, que a vida é assim mesmo, bem “Gabriela”, que se todo mundo faz não tem problema, que ser simpático é mais importante que falar a verdade, que viver num mundo de ilusões é melhor do que tentar.
Muitas vezes não queremos sair de nossa zona de conforto e evitamos ao máximo uma conversa frontal e sincera, um passo à frente, uma decisão, uma ação. E então nos esquecemos de que os bons pensamentos devem nos levar a boas iniciativas, para que estas se convertam em hábitos e, ao final, moldem destinos.
Mães entendem muito bem de iniciativas. Mães, com seus almoços e jantares, no “tchic-tchic” de suas panelas de pressão, entendem perfeitamente de hábitos, em suas rotinas estafantes. Mães também entendem muito bem de destino, pois trabalham pelo futuro, na mais desafiante das missões: criar um novo ser humano. Mães só não entendem de “acabativa”. Uma vez ‘mães’, este posto nunca acaba. Iniciativa elas sempre terão, enquanto o filho for filho ou pai de seus netos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Mate uma pessoa e ganhe uma terapia grátis

Escusas de explicar que o artigo que se desfolha sobre os olhos do leitor teve inspiração imediata nos casos extraordinários da realidade ordinária. Doceira que tentou matar adolescentes com brigadeiro envenenado vai passar por tratamento psicológico. E a frase que me veio à mente foi como um daqueles letreiros fosforescentes de Las Vegas: “Mate uma pessoa e ganhe uma terapia grátis”.
Que me perdoem os profissionais da lei e da psicologia, a quem minhas considerações não passam de um simplismo insuportável, mas confesso que me sinto preterida pela sociedade onde vivo. Sabendo o quanto custa uma terapia pela qual todo mundo, um dia ou outro, desejou ter cacife e tempo pra fazer, me parece um tanto inusitado, para não dizer injusto, que uma pessoa tasque o tal tratamento “na faixa”, depois de uma tentativa de assassinato premeditada e por motivo fútil: a prorrogação de uma festinha de aniversário, para a qual a assassina já teria recebido o pagamento e gasto o dinheiro sem ter preparado os doces. Que me desculpem os acadêmicos a simplicidade cortante de meu diagnóstico, mas o que leva alguém a cometer tal crime com tamanha frieza é doença ou é maldade? De onde vem essa nossa ânsia de agora de rotular com nome de doença o que para mim não passa de doença moral? Se uma criança não pára em sala de aula e não obedece ninguém, ela não é sem educação. Ela é doente, é hiperativa. Se uma pessoa mata outra, também, a maioria das vezes, alega transtornos mentais. Mas ainda não inventaram transtorno mental que deixasse a pessoa obcecada em ajudar os outros. “Fulano não pode ver ninguém precisando de ajuda, que é batata: já abre a carteira”. Alguém já presenciou esse tipo de desordem mental? Se já, por favor me avise.
O egocentrismo e a ausência de sentimentos ajudam a moldar uma sociedade psicopata, onde comportamentos antes condenados são não apenas plenamente aceitáveis como até admirados e desejáveis, como sinônimos de intrepidez nos negócios, espírito de luta e de vitória, esperteza. Não tem problema passar por cima de tudo e de todos, em nome da competitividade, se o que importa é ser bem sucedido e estar no topo. É a lei de mercado, a vida é essa. Não importa se o lugar de destaque na mídia foi conquistado a troco de mentiras e apelações. “Ela é esperta, sabe lidar com as armas que tem”, dirão.
Aos poucos, as pessoas não percebem que estão ajudando a reforçar um comportamento predatório que não age altruisticamente, não age pelo que é certo e justo, mas apenas em nome do que é vantajoso. Numa sociedade assim, a vida não é respeitada.
Constato, tristemente, que embora os brasileiros sejam tão famosos pelo otimismo e por amarem a vida, a despeito das adversidades, a vida, no Brasil, não tem valor.
Familiares do brasileiro morto na Austrália reclamavam, esta semana, não da postura das autoridades australianas, segundo eles, protegendo obviamente os próprios interesses, mas das autoridades brasileiras no país, que não fizeram e que não estariam fazendo nada para solucionar o caso e torná-lo o menos doloroso possível para a família.
Será que o nosso governo valoriza a vida do indivíduo brasileiro ou só dá importância a números brutos e absolutos?
Leio matéria divulgada na edição de hoje do Diário da Região, que diz: “Dengue mata e a Prefeitura ‘comemora’”. Segundo o jornal, nota da Prefeitura de Rio Preto considerou vantagem ter ocorrido “apenas uma morte” em 2011 e uma agora. E eu pergunto: a vida de uma pessoa não tem valor? Ou só tem valor se esta única pessoa tiver milhões no banco?
Vamos comparar com a realidade em outros países. Certamente que há países onde a vida humana é ainda bem menos respeitada que no Brasil, mas se a intenção é melhorar é preciso mirar os melhores exemplos. Sem entrar nos pormenores da guerra, é fato notório, avalizado por membros da comunidade judaica, inclusive a do Brasil, que “todo soldado israelense SABE que seu país não medirá esforços para resgatá-los caso caiam nas mãos do inimigo, no que seria uma ratificação do profundo respeito de Israel à vida humana e para os caídos”. E o texto vai além: “Este princípio emana do senso de moralidade de Israel assim como da ética judaica. Trata-se de uma demonstração do poder físico e moral de Israel”.
Em cena de um especial para TV, o presidente John Kennedy, em reunião com o presidente russo, tenta persuadi-lo de que era preciso evitar o confronto. Como argumento, o fato de que muitas pessoas perderiam a vida. O presidente russo teria respondido: “O que só vai provar que nós, russos, somos muitos”.
Vou acreditar no governo que valorizar a vida de cada ser humano e não no fato de sermos muitos. Vou dar valor ao governante que enxergar a infinita potencialidade do indivíduo e na perda incomensurável que se tem a cada criança desperdiçada nas ruas e que poderia se tornar um adulto de sucesso, contribuindo, com o seu talento, para o desenvolvimento do país, provando que o verdadeiro exército é o “exército de um homem só”.
A vida de uma única pessoa precisa ser valorizada. Do contrário, continuaremos assistindo ao massacre de milhões nas estradas, em assaltos e pela forma mais vil: a corrupção.
Ainda há muito que fazer. Por enquanto, quando se tira uma vida, ainda é possível ganhar terapia, receber uma punição branda ou nem isso. Afinal, é apenas UMA vida. Quem liga?

terça-feira, 10 de abril de 2012

Viciados em celular

As paranoias já podem ser encontradas numa variedade tão grande quanto os produtos de uma loja de departamentos. Uma delas é a nomofobia – do inglês no mobile phobia (fobia de ficar sem celular). São pessoas que, ao perderem seus celulares ou ficarem momentaneamente impedidas de conectarem seus smartphones, sentem-se como aquele soldado com a perna gangrenada ao ouvir do médico: “Vamos ter que amputar, filho”.
Elas têm que estar conectadas religiosamente todos os dias a todo o momento, ou é ataque de ansiedade na certa. Para entender o ridículo da situação, seria mais ou menos assim: Ulisses, ao invés de chegar da Guerra de Troia e encontrar sua Penelope pura e casta, tricotando e desmanchando, tricotando e desmanchando, teria recebido um SMS dizendo “Pepé ta saindo com o Cláudio”. Ou ainda contemplaria petrificado as fotos do flagra tiradas com um celular e postadas numa rede social. Para se vingar, ele enviaria para toda a sua lista de contatos fotos comprometedoras da grega safada.
Difícil para o nomofóbico analisar a real dimensão da importância que ele dá a cada postagem ou checagem, e separar o que é produtivo do que é distração ou narcisismo.
Complicado conversar olhando no olho do nomofóbico, cujo celular é mais ativo do que um coelho na puberdade. Arriscar uma conversa não virtual com o nomofóbico é se sentir numa churrascaria de rodízio, onde não conseguimos concluir um raciocínio sem sermos cortados pelo tilintar de espetos de cupim, picanha no alho e lingüiça cuiabana.
Numa de minhas férias loucas, mal programadas e inesquecíveis, procurávamos o caminho para Trancoso, a partir de Caraíva, sem ter que pegar a rodovia, aventurando-se nas estradinhas de terra que ligam – ou ligavam, já não sei como aquilo está – um vilarejo de praia a outro. Aquilo era quase um universo paralelo dos contos de Tolkien, onde no lugar de elfos pululavam seres inexplicáveis de cabelos enormes em forma de microfone. Ninguém tinha nem relógio. Para saber a hora, tinha que olhar pra cima e ver a posição do sol.
Sem saber se teríamos sucesso na empreitada – dizia a lenda vigente que as chuvas dos últimos dias haviam destruído algumas pontes que ligavam as vilas – entramos no Uninho com fé, já que a fé, por aquelas bandas, não costuma ‘faiá’. As tais pontes eram pedaços assimétricos de madeira, preparados para receber mulas de quatro patas e outras mulas que insistiam em testar sua resistência em um veículo de quatro rodas.
No caminho, avistamos um menino franzino de pés descalços e bermudas desbotadas. Perdidos, paramos para pedir ajuda. Como um Yoda do Agreste, ele nos informa do preço a ser pago pela preciosa informação. Apelamos: “Dá um desconto pra gente... Olha o nosso carro!”. Movido da compaixão que só os pobres têm, o garoto releva: “Tá bom, tio, me dá cincão que eu te levo lá”. E no final ele fez muito mais que ensinar um caminho: contou histórias, nos divertiu, demos risadas, fizemos um amiguinho, tiramos fotos. Ficamos sabendo que sua mãe é lavadeira, que ele queria estudar e tinha planos. E também que aquele pedaço da praia, logo depois do coqueiro debruçado, fica lindo quando a maré baixa, deixando o mar da cor verde água dos olhos de Diadorim.
Fosse eu nomofóbica naquele ano 2000 da Miss Brasil de Rita Lee, não baixaria os vidros do meu carro para pedir informação. Consultaria o GPS do meu smartphone. E o garoto sorridente , queimado de sol, jamais figuraria em nossas fotos, nem o que aprendemos com a história de vida de alguém tão novo e que se vira tão bem usando apenas a vibração de suas cordas vocais.
Sejamos honestos, aparelhos de última geração não me dariam sequer a chance de me perder. Consultaríamos, antes de sair de casa, a previsão do tempo e as condições das estradas: chuvas torrenciais em todo o território nacional nos próximos dias, com trechos interditados. Por um desses mistérios da meteorologia, fomos abençoados por uma janela de sol baiano, em meio à chuvarada que nos pegou pelas beiradas. Se tivéssemos sido espertos como nossos telefones de hoje em dia, estaríamos a salvo, dentro de nossas casas, acessando a internet, postando vídeos e respondendo a comentários, explicando a centenas de internautas porque não fomos, sendo que 90% deles estariam se lixando pra isso, porque eles estariam postando comentários divertidíssimos sobre a Maísa que ainda não voltou de Bagdá. Não teríamos sentido o prazer de se perder em ruas de terra cercadas por amendoeiras e descobrir ali adiante um berçário de caranguejos. E pensar que foi se perdendo que um dia se chegou neste país.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A dança das cadeiras

Que me perdoem o amadorismo leigo, que eu, de verdade, só entendo de jornalismo, tutorial de internet, bolo de chocolate e otras cositas más que a curiosidade inerente à minha sofrida profissão me permite saber. Reconheço que existem alguns tipos gênios, como Leonardo da Vinci, que pintava o sorriso da Monalisa com uma mão e com a outra se debruçava sobre estudos científicos que iam de aeronáutica e astronomia, passando por botânica e engenharia, até química, geologia, hidrodinâmica, física, zoologia e pirotecnia – e aonde mais ele não “ia”?


Confesso que uma vez destituída de minha atual função, poderia pensar em bem menos áreas férteis de onde tirar meu ganha-pão. Todas, de uma forma ou de outra, dependeriam da habilidade de comunicação, intrínseca às ciências humanas. Não ser gênio e ser honesto tem dessas coisas. Não me transformaria, do dia para a noite, numa arquiteta de sucesso. Como engenheira, poderia dar a mão a Sérgio Naya, aquele do prédio que desabou e que faleceu em 2009, dentro de um quarto de hotel – que não desabou, fique claro – conforme o Wikipédia acaba de me lembrar. Leio que na Prefeitura, quem estava na Secretaria de Cultura foi para a de Compras. Quem estava no Fundo Social foi para a Cultura. Quem estava no Planejamento foi para Obras. Quem estava na Secretaria do Emprego vai para o Planejamento. Diante desse maracatu das cadeiras nas secretarias municipais de Catanduva, chego a pensar que ou a nossa Prefeitura está cheia de gênios, que como Da Vinci dominavam as mais diversas áreas do conhecimento, ou quem nomeia para cargos de chefia no nosso Município não tem a menor ideia do que está fazendo. Ou tem, e a ideia é essa mesmo...

quarta-feira, 14 de março de 2012

Politicamente incorretos ou criminosos?


Leio no jornal que um show de stand-up com piada preconceituosa acabou em confusão. Um negro que estava na plateia se sentiu ofendido com uma piada sobre negros. A matéria reforça que, na entrada, foi pedido para que os expectadores assinassem um termo de compromisso de que não se ofenderiam com nada que fosse dito. Mais ou menos como aquela famosa frase que todo mundo já ouviu: “Se eu te falar uma coisa, você promete que não vai ficar brava comigo?”. Algo que só demonstra a covardia do interlocutor em encarar as consequências de seu discurso, como se fosse possível a pessoa saber se vai ficar brava ou não antes de saber do que se trata.
Temos visto muitos casos de humoristas sendo acusados de racismo ou processados por alegadas ofensas cometidas durante shows de stand-up. De um lado, há os que defendem o livre pensamento, a liberdade de expressão e dizem que as piadas são apenas meramente politicamente incorretas e que não há sentido cercear o humor dessa forma. Até porque tudo não passaria de uma ingênua piada. De outro, figuram, parecendo mais antipáticos, os que não viram graça nenhuma na piada.
Os ofendidos têm algo em comum: são os alvos da piada e geralmente fazem parte de alguma minoria, como negros, deficientes ou mulheres, especialmente as loiras, que não são minoria, ainda que se prove que são loiras falsas. Entenda-se como minoria, não minoria quantitativa e sim minoria quanto ao modo como são tratadas pela sociedade, se tem recebido os mesmos benefícios que as demais ou não, os mesmos a que tem direito.
O caso é que é muito fácil rir de nós mesmos e das próprias piadas, até mesmo quando elas ridicularizam a nós mesmos ou ao grupo social a que pertencemos se não nos sentimos ameaçados por tal comentário. Eu posso contar uma piada de brasileiros entre brasileiros e todos rirão, mas dificilmente ririam se a piada fosse contada por um europeu, diante de tantos casos de deportação nos aeroportos que temos acompanhado nos últimos tempos.
Dificilmente uma loira vai a uma delegacia registrar queixa porque alguém contou uma piada de loira. Pode até não gostar, mas não vai. E por que uma negra iria? Simples. Pergunte, na intimidade, a um empresário, se ele prefere contratar uma negra competente ou uma loira competente. Lembre-se de quantas paquitas da Xuxa eram negras. Veja quantas top models brasileiras são negras, num país onde quase metade da população é negra ou mestiça. Observe quantas personagens principais de novelas são brancas e quantas são negras. Visite uma classe de universidade e conte quantos são negros. E a culpa dessa discrepância não é a incapacidade, mas da falta de condições para que eles ascendam socialmente, para além da condição de passista de escola de samba ou jogador de futebol. Com tristeza percebo isso e não sou negra. Garanto que os que são o sabem bem melhor. Já ouvi de amigos negros bem sucedidos o quanto eles tiveram que ‘ralar’ muito mais pra ‘chegar lá’ do que um branco.
Quando chamadas de girafas na escola, as modelos não contam que tomaram, na época, qualquer providência legal contra isso. É fácil entender por quê. Porque ser loura e alta não as desabona em absoluto. Que o diga Gisele Bundchen, a ‘loura girafa’ que está podre de rica e só sorrisos de orelha a orelha. É a velha história de que a pedra não vai deixar de ser pedra só porque a chamam de cadeira. Quem não sofre os efeitos da diminuição dificilmente se ofende com comentários sobre suas características.
O preconceito mais grave é deficiente visual. Não vê cor ou raça. Só vê o dinheiro na frente. Ou será que o presidente norte-americano Barack Obama ou o jogador de futebol brasileiro, mundialmente conhecido, Pelé, seriam maltratados em algum ambiente, por serem negros? Antes da cor da pele deles, vêm a conta bancária, o carisma e o prestígio social.
Ray Charles pode ter encontrado dificuldades no início de sua carreira, por ser cego e negro, mas sua deficiência, lado a lado com sua genialidade, para quem o assistia, só o tornava ainda mais genial. E a cor da pele, que na época o impedia até de fazer shows em determinadas localidades dos Estados Unidos, no final de sua carreira, também já não significava nada.
Mas isso não acontece com a grande maioria negra pobre ou deficiente que não teve a mesma sorte de Ray Charles, de desabrochar seu talento e vê-lo reconhecido. Para esses casos, as piadas e demonstrações preconceituosas machucam, por uma simples razão: quem sofre não vê graça nenhuma nesse sofrimento. Experimente gargalhar num velório.
A comparação vem bem a calhar porque ambas as atitudes demonstram egoísmo, insensibilidade, falta de solidariedade para com as dificuldades enfrentadas pelo outro, pois ainda que não se sinta sentimentalmente envolvido com o drama alheio, é incapaz de demonstrar ao menos respeito. Procuram provocar risos seguindo a mesma fórmula dos programas de auditório e seus vídeos cacetadas.
O argumento dos tais humoristas para continuarem fazendo piadas politicamente incorretas é o direito a fazer rir. Pois bem, tem muita gente que não está rindo com isso. Talvez fosse o caso de procurarem fazer piadas de maneira mais inteligente. Piadas bem feitas, sem a apelação de se recorrer às agruras enfrentadas por minorias, seriam bem recebidas por toda a plateia.
Temos que nos perguntar por que rimos tanto quando o outro leva um tombo, se machuca, sofre, é humilhado. Quando rimos da tragédia alheia, do suplício do outro, seja ele grande ou apenas o desconforto de uma situação vexatória, não estamos nos engrandecendo em nada como seres humanos. Estamos apenas satisfazendo uma tendência sádica que os menos evoluídos gostam de alimentar. Tornamo-nos, dessa forma, ainda mais ridículos, pois aquele que só se sobressai quando o outro erra ou em cima das fraquezas ou mazelas dos outros prova que não é melhor, que mesmo tendo mais condições sociais de fazer melhor não consegue se destacar para além de um ser humano medíocre. Se fosse fora do comum, defenderia não apenas o estúpido direito a dar risadas, mas tentaria diminuir as diferenças, não reforçando ideias preconceituosas, até o dia em que elas, por já não existirem, não limitariam em nada a criatividade de nossos humoristas.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Sobre cortes e membranas

Existe algo de enigmático na superfície e algo que me inquieta sob a derme. Eu me descuido e a folha do papel sulfite corta meu dedo, como há muito eu não fazia. São 11h29 de um dia 8 de março.
Pensamentos são interrompidos por afazeres menores de grande importância, o tipo da causa urgente que no último suspiro não representará lampejo de memória. Lembro-me desse futuro porque o corte grita, do alto de sua insignificância. Passam agora 12 minutos das escancaradas duas horas da tarde.
E concluo agora, neste exato momento que nunca mais será igual a qualquer outro, que os olhos não tem cores absolutas. Não existem somente olhos castanhos, verdes e azuis. E nem o hazel do inglês é suficiente para explicar todas as nuances. E ainda que sejam negros – não subestime os negros – eles também não são todos iguais. Há cores, formas, brilhos e vibrações por trás daquelas membranas óticas. Possibilidades tão sem fim que as correntes nervosas paparazzi do nosso cérebro não são capazes de reportar. É preciso ir fundo, bem fundo na derme, romper a couraça da carne para além dos vasos capilares e descobrir, de citoplasma em citoplasma, pegando carona nessas balsas microscópicas, qual delas nos mostra o túnel que dá acesso à alma. Esta bela, doce e misteriosa desconhecida.
Porque há certos olhos azuis. Certos olhos azuis que observavam com doçura e se indignavam com um corte provocado por uma folha sulfite. “Que pele fina”, pensava. “Ela corta com folha sulfite a ponta de seus dedos, as laterais finas como uma massa pat à choux”. E sorria. E as sombrancelhas criavam um ângulo de singela preocupação. E a pele do rosto enrugava pelo sorriso, na pele branca veneziana, formando rococós barrocos como moldura para aqueles olhos que falavam na língua do brilho.
Pensamentos como este têm vida própria. Combino suas moléculas cuidadosamente no lodo de ideias. E agora imagino outros dois olhos azuis. Desta vez são olhos polacos de amiga.
A polaca também era amiga dos papéis e algumas vezes a celulose também lhe cortou a pele de porcelana. E ela experimentou a sensação onipresente de um corte quase invisível. Que ninguém vê, só os mais sensíveis. Que fica ali latejando, desafiando a forma patética com que foi criado.
O que não nos mata nos fortalece. E a polaca dissolveu seus potes de confusão numa infusão de ervas libertadoras. Pegou sua caneta dourada e com ela aprendeu a escrever novos capítulos em sua história, com cheiro de flor.
Ela caminha com cuidado. Tem medo de ferir e ser ferida. Não tem pressa pra decidir, mas quando tem certeza, nada  é capaz de lhe impedir. É como a força da gota d’água, delicada, no desenho da rocha desenhada, quando ela anda de braços dados com o tempo, como aliado. Meus olhos são escuros, mas tem algo de polaco, pois dentro deles desfruto da mesma tonalidade de alma.
Sabemos que podemos mudar. É fácil e cruel demais deixar a vida decidir por si própria, deixando que as tragédias se abatam sobre nós.
Mas, como aqueles olhos que já se foram, sabemos a hora certa de não decidir. A hora certa de simplesmente partir e de sequer nos sonhos aparecer. Sumir sem deixar pistas. Assim como aqueles olhos azuis.
Agora noto que a pele se regenera formando uma linha levemente áspera por onde o papel fincou. “Ela corta os dedos no papel sulfite...” E ele sorria gostoso, cheio de amor. ‘As palavras ecoam por todo o sempre’, penso agora.
Passam 37 minutos das duas horas da tarde. Tenho fome. Vou ingerir proteínas e carboidratos que conferirão ao meu corpo capacidade ímpar de deixar este corte irreversivelmente no passado. A fome simplifica. A fome animaliza, minimiza e distrai. Porque é depois da comida que vem a busca. Só depois de dar uma satisfação ao estômago agonizamos nas questões elevadas. E me lembrarei que alguém, um dia, pegou delicadamente em minhas mãos e observou, como se isso fosse uma virtude das deusas, que eu tinha a capacidade sílfide de cortar meus dedos em folhas sulfite.