quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Pedra no sapato

“Aroldo Pedrosa é uma rocha”. Diziam isso dele, mas o que na verdade gostariam de dizer é que ele era duro como uma pedra. “Que personalidade ele tem!” Pobre é cabeça dura, mas rico “tem personalidade”. “Pessoa de opinião o Pedrosa!”.
Aroldo era difícil. E digo difícil não como atributo desejável nos tempos das moçoilas ternurinhas. Sua esposa por vezes desabafava: “Aroldo, eu te amo, mas você é di-fí-cil”. E dizia isso assim, separando as letrinhas com pausas dramáticas.
Uma pessoa que não pode ver um quadro meio torto é tida como portadora do transtorno obsessivo compulsivo, o famoso “toc”. Mas Aroldo não tinha só um “toc”, ele era um “agarramento” inteiro de manias e ideias fixas, coberto por uma casca de concreto feito com o mais indissolúvel dos argumentos para qualquer assunto de todas as especialidades em todas as hipóteses possíveis.
Para Aroldo havia sempre duas opiniões: a errada e a dele. Andava empinadinho, empoladinho, estufadinho, como um mufim de aniversário.
Quando verbalmente encurralado em uma das acaloradas discussões semânticas em que se metia, erguia o tom da voz e punha o dedo em riste na cara do interlocutor, com ares que transformariam o general Geisel na Taylor Swift. Com o tom solene, recorria a fantasias, exemplos exagerados, citações que provavelmente não seriam conferidas àquela hora da noite numa enciclopédia. E se a Wikipédia negasse, culpa dessa internet e sua tribo de loucos! A maioria das vezes funcionava. O coitado do ouvinte recuava, fingia rendição, por vezes até se desculpava. Se o caldo entornasse de vez, Pedrosa não respondia por si. Ofendia-se, torcia as palavras do “adversário”. E houve até caso em que a conversa terminou num definitivo: “Cale a sua boca!”. Afasta de mim esse cálice.
“O mundo muda, Pedrosa!”, aconselhava-lhe a esposa. Mas qual. Para Pedrosa, ‘tempo bom’ eram “aqueles velhos tempos”. Nos dias de hoje não havia nada de bom. E quanto ao futuro, Deus tenha piedade.
O tormento era quando se pegava gostando de algo sobre o qual já havia oficializado detestar. Seus alvos de crítica eram praticamente registrados em cartório com firma reconhecida. Aí se surpreendia batendo os pezinhos ao som daquela música e contendo o sorriso de canto de boca ao assistir aquele comediante. Mas contorcia-se em suas convicções. “Um homem decente é feito de constância”, acreditava.
E a comida? Um dia a esposa, pra dar uma variada no cardápio e cheia de ‘más intenções’, o levou a um restaurante de comida indiana. Já na porta do restaurante, Pedrosa arregalou os olhos: “Mas o que é isso? Você quer que eu me converta? Você sabe muito bem que eu sou crente kardecista!”.
- Mas, Pedrosa... é só a comida...
- É assim que eles começam, Ofélia, vão te enfiando pimenta goela abaixo e quando o sujeito se dá conta já está matando galinha preta.
E de confusão em confusão, preconceito em preconceito, teimosia em teimosia, Pedrosa se enrijeceu. Endureceu-se até perder a ternura pra sempre. Um dia Ofélia o chamou para o arroz com feijão de todos os dias, mas Pedrosa já não respondeu. Na cadeira art decoque herdara do avô, calado estava, calado ficou. Ofélia nem chamou de novo, pois Pedrosa não era de mudar comportamento. Foi até a sala onde estava o marido e o cutucou no ombro esquerdo – o direito ele não gostava.  Foi então que Pedrosa se desfez em mil pedaços, como uma louça chinesa espatifada.
Pedrosa não entendia que é próprio dos sábios mudar de opinião.
Pedrosa, diferente de Pedro, que negou três vezes pra depois chorar arrependimento e mudar de opinião, quis ser como Judas, que ao se negar a encarar as consequências de suas ideias erradas exterminou-se da vida, amaldiçoou-se pro mundo.
Pedrosa não sabia que o importante é ser autêntico e não ser sempre o mesmo. E que o bonito da vida é que as coisas se transformam. E que a mãe de todas as misérias é ter tudo e saber tudo. E não pensar em mais nada que se queira.
Pedrosa não descobriu porque é das crianças o reino dos céus. Que um alienígena na frente de um adulto provoca desmaios, mas na frente de uma criança é tão atrativo quando um cubo colorido. Que o bebê é o mais sábio de todos os filósofos, porque pra ele tudo é perfeitamente possível. Porque a criança é o ser em expansão que os adultos engessados deixaram de ser, como o Pedrosa, feito de massa sólida.
Ofélia varreu os cacos, vendeu a cadeira, comprou uma nova, art nouveau, e se mudou pro litoral do Maranhão, onde as marés, num único dia, transformavam a paisagem por mais de uma vez, levando pra longe todo ranço de mesmice.

Medusa Marinara

Não resisti e tive que postar esta obra do artista plástico Vik Muniz. É o artista brasileiro que mais vende no exterior. Ontem finalmente assisti ao documentário "Lixo Extraordinário", que eu super indico e que me deixou maravilhada e curiosa por outros projetos dele. Daí encontrei a Medusa, que tem tudo a ver com o blog!
Pesquisando o mito da Medusa descobri que ela era na verdade uma mulher bonita, que foi vítima de vingança e por isso foi transformada num monstro pela deusa Atena, que também a tornou mortal e com a capacidade de transformar em pedra todos que olhassem para o seu rosto. Por isso ela vivia numa caverna. Já os homens de hoje parece que estão com medo de olhar pras mulheres como se deve, ou então não as compreendem, ou então as vêem como "monstrinhas" ranzinzas. Aliás, nada pra irritar mais uma mulher que não olhar no rosto da gente...

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

As sacolas de plástico do Satanás




O Brasil tem momentos memoráveis. Lembro quando todo mundo foi obrigado a ter kits de primeiros socorros no carro. Ai de quem fosse pego numa blitz sem o tal kit. Era multa na certa. E salgada! Ficou pra sempre a dúvida no ar do que alguém poderia fazer pra ajudar uma vítima de acidente com traumatismo craniano, com um exemplar do kit nas mãos. Colocar umas gazes com fita adesiva aqui e ali? Quem se deu bem foram os fabricantes. E por falar nisso, por onde andarão os tais kits?
Eles me fazem lembrar o Kit Kat chocolate. O Kit Kat também sumiu do Brasil. Comi meu último na Austrália. A comida de lá era horrível. Eu vivia à base de Kit Kat. Mas não era mau. O Kit Kat devia ser um dos componentes da cesta básica. O Kit Kat, aliás, seria mais útil que o tal kit de primeiros socorros. Se eu me perdesse numa estrada de terra esburacada, não morreria de fome. Como um país como o Brasil, já a 6ª economia do mundo, pode não ter Kit Kat? Para os que vêem maldade em tudo: não, eu não estou recebendo cachê do fabricante pra falar deles. E nem me acusem de fútil. Não finjam que isso não é importante. Eu garanto que qualquer um que leia este artigo trocaria sem pestanejar uma caixa de kit kats por um senador. E fui boazinha agora. Pra maioria, não bastaria nem a caixa inteira. E talvez alguns fizessem jejum por um mês só pelo prazer de ‘ejetar’ um senador. Eu não entendo... talvez esses kit kats tenham ficado todos retidos em Brasília, no fim das contas... Eu abriria uma CPI pra investigar o sumiço dos kit kats.
O caso é que eles voltaram! Quando os vi na prateleira do supermercado, baixou o espírito do Scrat, aquele esquilo pré-histórico do filme Era do Gelo, que fica hipnotizado quando vê sua noz. Pois bem, engalfinhei uns quatro kit kats numa mão só e deixei brilhar a criança que vive em mim. Cheguei a casa, fui saborear, cheia de expectativa, mas o sabor... estava horrível! Me venderam um biscoito mirabel de 1979 coberto por uma camada de chocolate de quinta! Será que eu vou ter que ver canguru novamente pra poder comer um Kit Kat decente? Enfim, morar num lugar onde as coisas são o que deviam ser e os chocolates não viram uma meleca deve ser um bálsamo.
E já que eu estou falando em compras, aproveito pra compartilhar minha primeira experiência no mundo ecológico dos brasileiros de 2012. Sim, porque agora que a gente não vai ter mais sacola plástica pra carregar as compras, todos os nossos problemas acabaram. Está escrito em Organizações Tabajara, página 26.
Lá vou eu fazer minhas comprinhas. As ditas sacolinhas poluentes já não estavam lá. Pedi a biodegradável, disposta a pagar os tais 19 centavos, ainda que ache que seja obrigação do mercado pagar, conforme dita o Procon. Mas cadê as biodegradáveis? Nem cheiro. "Onde devo carregar minhas compras, então?"
A caixa disse que ia me arrumar uma caixa (caixa de papelão, digo). “Carrego onde? Na cabeça?” pergunto. "A senhora não tem carro?" Respondi um lacônico 'não'. Claro, compreensível em Catanduva. Com um Terminal Urbano daqueles, você é obrigado a ter carro. Mas “não, não tenho, não senhora”.
A caixa vai até um balcão ver o que pode ser feito. De lá, umas funcionárias cochicham e olham pra mim, com cara de espanto, como se eu fosse um alien. Me sinto péssima. Ela me vem com umas sacolinhas remanescentes do plástico maldito do Satanás. Não sei de onde tiraram aquilo. Deviam estar já na boca do sapo ou então é contrabando, já não sei. Continuo me sentindo péssima. E saio de lá mais péssima ainda em saber que em Catanduva não há coleta seletiva de lixo e que o tal plástico da biodegradável, por causa do amido de milho, vai se desprender em pedacinhos exíguos pra não entalar em bueiro e fazer um problema ficar invisível aos nossos olhos. Os pedacinhos pequetiticos do mesmo plástico, com todas as químicas poluentes, vão pra onde mesmo? Pra outra galáxia? Pra putana que los parió? No, no, no. Acertou quem respondeu: “vão pra natureza mesmo”. Como a gente é ishperto, néan??
Já ia me esquecendo, o Kit Kat, que eu nem terminei de comer, foi com plástico e tudo pra lata do lixo, destino para onde devem ter ido os infames kits de primeiros socorros que agora pululam por aí – seus restos mortais, digo – pelos fétidos esgotos do nosso Brasil varonil, onde vergonha não é roubar. Vergonha é comprar e não poder carregar. E assim eu vou descendo a ladeira: lata d’água na cabeça... lá vai Maria... lá vai Adriana... lá vai Luzia...
(As fotos que ilustram o artigo são de Kit Kits do Japão nos sabores manga e melancia, frutas... brasileiras!)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Glória e poder são maravilhosos, mas não é a vida o bastante?


No Mar Mediterrâneo, um barco à deriva. Nele refugiam-se um general Marco Antônio combalido pela batalha, acompanhado de seu fiel centurião. A cena é uma de minhas favoritas do seriado Roma. De tão realista – salvo as licenças poéticas – a sociedade que mostrou só não foi mais violenta do que cínica. Tal fenômeno social parece familiar?
Não é nada animador constatar a onipresença, ao longo dos séculos, daquele tipo de brutalidade que é soberana ante todas as outras: a indiferença cortante que me permite cravar os dentes numa suculenta maçã enquanto contemplo os pratos vazios de milhares, alçados ao céu, daqueles a quem a fome dilacerante consumiu com seus enzimas vorazes toda a vergonha que restava.
É do personagem do seriado, portanto – e pouco provavelmente do real personagem histórico – a célebre frase do título deste artigo, mas gosto de imaginar que talvez ele tenha dito algo semelhante, enquanto saboreava o gosto amargo da derrota. Pede um gole d’água do alforje do soldado. E a água ainda tinha um gosto bom – nota o amante de Cleópatra, sem qualquer banzo dos finos manjares. Logo após, a triste constatação: “Glória e poder são maravilhosos, mas não é a vida o bastante?”.
Os poderosos do Império Romano sabiam que poder e glória coroam os que dominam com estratégias calcadas em ambição, frieza e mentiras. Mas esta coroa de glória não traz consigo a felicidade e, por também não vir com o bônus da eternidade, termina sempre fatalmente consumida pelo orgulho insaciável de seus coroados. Assim foi com Marco Antônio, Cleópatra, Brutus, Júlio César e tantos outros. Uns tiveram um final trágico prematuro, outros um desfecho glorioso que perdurou por mais tempo, mas, ao final de tudo, não era a vida – e apenas ela, com tudo o que significa em sua essência – o bastante?
Mais sábio foi o Rei Salomão, que antes de morrer deu o seu veredicto: "Atentei para todas as obras que se fazem debaixo do sol, e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento. Apliquei o coração a saber o que é loucura e o que estultícia; e vim a saber que também isto é correr atrás do vento, porque na muita sabedoria há muito cansaço e quem aumenta ciência aumenta tristeza".
Aproximamo-nos de um dos períodos de mais intenso culto às efemérides e vaidades. Os defensores da prática dirão que é o enaltecimento da cultura genuinamente brasileira, que entroniza, como em nenhum outro feito, a igualdade entre pobres e ricos. Eu, a despeito da inegável beleza e pompa dos desfiles, devo dizer que o Carnaval não cumpre bem nem a primeira nem a última função citada.
A glória e a vaidade embutidas no Carnaval, pagas a preço de ouro com o dinheiro dos nossos impostos, é experimentada por uma pequena parcela de privilegiados, os que verdadeiramente lucram com a festa, incluindo, nos últimos tempos, até quadris gringos a substituir as mulatas, estas trocadas ainda por esquálidas mulheres ricas, que pagam pelo lugar de destaque.
Enquanto isso, o povo, em vez de se revoltar com as notícias de corrupção do legislativo e judiciário, têm a visão inebriada pelo brilho da festa, como na política do panis et circenses (pão e circo) empreendida pelos romanos.
Recentemente, no Brasil, foram longe demais ao subestimar o povo. O programa de péssimo gosto “Mulheres Ricas”, de tão cínico, ofendeu. Para criticar, costumo assistir ao menos a um episódio, mas confesso que deste não cheguei a ver nenhum. Não sucumbi aos apelos de qualquer forma de nenhuma das “personagens” apresentadas, com seus lábios de Pato Donald e bochechas de travesseiro entupidas de botox. A mim bastou ler nas notícias o impacto de algumas de suas pérolas de vaidade, desferidas com total indiferença. Não seria isso uma nova forma de maldade? Uma espada que não esquadrinha as tripas de ninguém, mas embrulha o estômago de todo mundo.  
Sinto muito, darlings, mas no final não vai sobrar botox sobre botox. É triste e solitário chegar ao fim da vida e perceber que se perseguiu o tempo todo o que era superficial. Como já dizia Madre Teresa de Calcutá, a falta de amor é a maior de todas as pobrezas. E o amor, tão qual a vida, é mais do que suficiente. O resto é acessório. Emplumado, emperiquitado e maquiado.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Aquele sábado



Quartas-feiras deveriam ser dias frugais como cardigãs em tom de pêssego. O luto da segunda-feira já teria deixado a fase da negação e adentrado a fase da aceitação. Por outro lado, a euforia do final de semana ainda não teria motivos para se instalar. Apenas a rotina pálida, de sorrisos permitidos e respiração pausada.

Já os sábados, estes sim, deveriam sempre corresponder à expectativa das sextas, tal como as mães detestam frustrar os filhos em vésperas de Natal e Dia das Crianças. Sábados deveriam ser animados ao som de mil vozes gritando “vambora!”. Deveria ser lei. Todos os sábados tinham que ser ensolarados em dias de praia e com garoa paulistana em dia de cineminha em casa. Tempestades tortuosas deviam ser reduzidas a mera ficção científica.

Nas sextas-feiras – e eu já falei delas – devíamos ter direito a dormir o sono das ninfas, o sono das despreocupações, apimentado ligeiramente por uma ansiedade saudável, de quem mal pode esperar pelas alegrias que ‘ele’ trará. Ele, o distinto senhor sábado.
Tragédias deveriam ser expressamente proibidas de acontecer, de qualquer forma, mas ainda mais, quando se tem 30 anos e se está no auge da vida. Quando você pensa que tua vida já assumiu o caminho que escolheu e embala numa velocidade interessante para em breve já lhe trazer os frutos. Deveria ser punido com o exílio irreparável quem inventou as tragédias que vitimam pessoas inocentes, de coração puro e brilho no olhar. E mais: as pessoas que são tão amadas e causarão tanto sofrimento com sua ausência.
Deveriam ser crime tragédias que vitimam pessoas belas, jovens, talentosas, amorosas e saudáveis (e não quero ser fascista em relação a isso, tampouco me preocupo com os juízos de valor que possam fazer de mim enquanto escrevo isto), mas talvez sejamos mesmo mais greco-romanos do que sonhamos e os belos quando morrem... Ah... os belos... é como passar um rolo compressor num jardim de acácias ou demolir a Capela Sistina. Deveria ser alvo de punição uma tragédia acontecer na véspera de uma viagem, às barbas de fevereiro e num país como o Brasil!

Deveria ser proibido morrer quando existe outro alguém que ama tanto que este amor seria suficiente pra durar por toda a eternidade e nada nem ninguém nunca iria separá-los. Num mundo onde tantos não conseguem se entender... sim, separar um amor verdadeiro deveria ser proibido. Um amor tão grande que, solitária, como os pombos, não se importaria de morrer também e o faria se isso não traísse o próprio sentimento tão contraditório que é este amor.

Finalmente, e se não fosse mesmo possível evitar a morte, deveria haver lapso de humanidade com poder tal a não permitir que morressem longe da gente. Deveriam morrer afofados nos nossos braços, sentindo o bater do nosso coração a lhes dizer: “Estou aqui, te amo e sempre te amarei até te encontrar de novo do outro lado, não tenha medo”. Assim, do jeitinho que vemos nos filmes de Hollywood e do jeito que 99,9% das pessoas não vão morrer – sejamos realistas! É, eu sei... a verdade dói. Não existe nada de nobre ou elevado em corredores frios de hospital, com enfermeiros meramente fazendo o seu trabalho e tubos entrando aqui e ali, até você ser gentilmente convidada a se retirar e deixar seu amor ali, numa sala fria e no meio de pessoas que ele não conhece.

A verdade é a mesma que se encarrega de transformar segundas-feiras em algo de extraordinário. Elizabeth Taylor recebeu uma das peças de sua coleção, um conjunto de colar e brincos de diamantes da Cartier numa tranquila tarde de terça-feira à beira da piscina. E ali, molhada e de biquini mesmo, as experimentou, como quem compra uma canga nova em Boiçucanga. Morreu com 79 anos, numa frugal... quarta-feira.

Há quartas-feiras perplexas, sextas-feiras agonizantes e sábados com cheiro de morte, zunido de UTI de hospital, o irritante barulho de geladeira velha, e odor de crisântemos. Eu adorava o perfume dele, ele não cheirava assim. E tudo o que você sente é revolta. É desumano, ele não deveria estar assim! E o beijo? Eu o beijo, tentando encontrar resquícios do meu amor, do cabelo onde eu deslizava meus dedos, orgulhosa da beleza dele e de quem ele era. Da mão que me segurava com firmeza, do sorriso que me derretia e do olhar que me acalmava e protegia.

Fazer o quê? Há sábados assim, como os de hoje, 28 de janeiro de 2012, que lembram de outro sábado, o de 28 de janeiro de 2006. São sábados tristes, mas diferentes, porque o tempo os separa. O tempo jogou pra longe a loucura paralisante, o desespero, e até a falta de esperanças. Porque eu e você somos filhos do mesmo Deus, que renova as nossas forças e as nossas esperanças e nos leva a outros vales de rios revigorantes, pra nos restabelecer até o fim dos tempos.

Os dias em que vivemos juntos vão ficando pálidos, conforme eu me afasto nesta estrada chamada tempo e às vezes, para mim, chegam a parecer uma outra vida, um tempo em que eu não tive direito de viver, uma ilusão, uma perda de tempo, um sonho, algo irreal que eu não percebia que devia ser um conto de fadas e agora sim é a vida real.

E peixe como sou, algo que me debulha em lágrimas depois me esfria como uma brisa finlandesa até quase parecer que não sinto mais. Ando oito passos, volto dois. Ando mais 14 passos, retorno três. O resto eu não sei. É preciso saber? Desisti de entender. As coisas são como são. É bom que no caminho encontre quem me dê a mão e tenha flores para arrancar.

É bom tentar me fazer forte para encarar não apenas a dor, mas a hipocrisia das pessoas, que no funeral me diziam “você tem que seguir com a tua vida” e agora me olham com olhares de lobo se me sinto feliz ou refaço minha vida, como se isso fosse digno de reprovação e de falta de sentimentos. Descobri, com isso, que, para a maioria das pessoas, uma tragédia nunca é o bastante. Há sempre um meio de fazê-la mais estarrecedora. Há sempre uma maneira de sentar no Coliseu e assistir lá embaixo, na arena, a dor alheia agonizante e paralisante, até se transformar numa enorme poça de sangue. Parece exagero, mas ainda continuamos a ambiciosa, egoísta e falsa sociedade romana. A raça de víboras que crucificou Jesus Cristo. A nobreza que faz caridade pra se aparecer. As mulheres e homens bons com seus ternos Armani, óculos Prada e bolsas Victor Hugo, que no sorver de seu creme brullé destilam veneno ao narrar as tragédias alheias. Como cavalos de raça que se apressam pelo primeiro lugar no pódio, querem ser sempre as primeiras a contar, argumentando, é claro, o quão consternadas estão. E passe-me a calda de cerejas, por favor!

Não que ele não mereça. Ele é digno de toda a honra e de que mantenhamos sua memória viva, até que nasçamos para a vida após esta vida. Mas hoje, que me desculpem, seus amigos que o amaram sinceramente, e ele mesmo, meu amor, mas não postarei foto dele, como o fiz nos dias anteriores, quando este triste dia se aproximava. Escrever sempre é uma catarse, mas hoje não tenho forças e não quero vê-lo. Eu o verei outro dia. E todos os que o amaram verão. Hoje deixo aqui uma obra dele, uma visão que ele teve. E talvez, quem tiver tecnologia necessária, se é que isso já existe, poderá vislumbrar seu rosto no reflexo dos meus olhos.

E já ia me esquecendo... Claro: um bom final de semana a todos. Esforcem-se e sejam alegres. Que Deus nos proteja, nos dê sua paz e encha nossas vidas de regozijo.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Segundos

Quer saber a diferença que fazem alguns míseros segundos na sua vida?
Meu marido é armênio. Como todo armênio é sensível à história do genocídio e principalmente ao fato de o mesmo ser negado até hoje pelo governo turco. Mas, prático e calado, raramente fala desses assuntos. Levou, por isso mesmo, anos, para que esse detalhe de sua história fosse a mim relatada.
Com 30 anos, ele obviamente não viveu aquela época. O genocídio armênio aconteceu entre 1915 e 1918. Mas sua vida e a minha foram afetadas. Mesmo sendo uma cidadã brasileira, sem qualquer ascendência oriental, meu destino teria sido totalmente diverso.
Ocorre que, com apenas seis anos de idade, o bisavô do meu marido escapou de ser morto, num dos assassinatos em massa empreendidos pelos soldados turcos.
Presos e mortos primeiramente os pais de família, mulheres e crianças eram transportadas ao deserto da Síria, país que na época também estava sob o jugo dos turcos. No caminho, não havia comida e qualquer aldeão que lhes alimentasse também poderia ser morto. No comando, eram escaladas gangues de curdos. Alertados pelo governo da Síria de que eles não sobreviveriam a uma jornada tão longa até o deserto sírio, sem alimento, os soldados passavam, então, a eliminar os armênios, entre eles mulheres e crianças.
Um a um, as gargantas de todos eram cortadas. Por vezes, crianças sobreviviam, órfãs e com as costas machucadas. Quando os soldados esfaqueavam as mães, estas protegiam os pequenos. A lança varava o corpo da mãe, atingindo parte do corpo da criança, que ficava encolhidinha entre o corpo da progenitora. Os soldados pensavam que estavam todos mortos e, assim, sobreviviam alguns.
No caso do bisavô do meu marido, quando ia ter a garganta cortada, eis que um soldado grita. Ordena que já basta. Uma ordem proveniente do governo turco havia chegado. Cerca de 1,5 milhão de armênios já havia sido eliminada e estes, na visão dos turcos, já não representavam nenhuma “ameaça”.
Órfão e entre centenas de corpos, um garoto de apenas seis anos corre em busca de algo simples. Não casa, amiguinhos, brinquedos, nem pai, nem mãe. Apenas a possibilidade de manter-se vivo. O instinto de sobrevivência falando mais alto, sem tempo nem parar chorar.
Difícil imaginar que destino poderia ter se descortinado a uma criança nessas condições. Poderia crescer e tornar-se um psicopata, como poderia ter crescido e se tornado um cidadão de bem, como se tornou, gerando filhos, netos e bisnetos, entre eles das pessoas mais doces e amorosas que já conheci.
Vejo o poder de segundos libertadores. Alguns segundos mais e sua garganta teria sido cortada. Ele não poderia ter tido um bisneto chamado Ares Karasu, o atual amor da minha vida. O homem que me salvou de uma grande dor, de uma grande perda. A perda do meu marido falecido em 2006, vítima de um acidente automobilístico, da falta de responsabilidade de um motorista inconsequente.
Ares não poderia ter sido um marido melhor para uma esposa viúva, tão sangrada pela vida.
Compreensivo, nobre de espírito, compassivo, é certamente o homem que meu primeiro marido, que tanto me amou, adoraria que tivesse tomado seu lugar para cuidar deste velho flagelado de guerra: meu coração.
Acidentes, assassinatos, omissão. Somos todos, de uma forma ou de outra, vítimas de segundos fatais ou de segundos salvadores.
Então percebemos também que armênios, turcos ou brasileiros, somos, antes de tudo, seres humanos, tão diferentes em nossas culturas, mas tão iguais em nossos anseios, sentimentos, feridas e carências.
Podemos concluir o quanto a discriminação e a incompreensão não têm qualquer sentido e os pecados do passado, para serem perdoados, precisam, primeiramente, ser admitidos. Afinal, ele, o senhor tempo, continua rugindo, senhor absoluto de todos os destinos, e não sabemos quanto tempo ainda temos para fazer a coisa certa, quantas gargantas simbólicas ou literais ainda serão cortadas por culpa da nossa omissão, quantos pessoas maravilhosas iremos impedir de vir ao mundo porque não investimos adequadamente nos seres humanos que estão hoje à nossa volta.
Finalmente, quantos destinos serão alterados, quando tudo poderia ser infinitamente melhor? As respostas saberemos em breve, porque tudo é uma questão de tempo.
No momento, gosto de pensar que aquele menino correndo, rumo ao desconhecido, não salvou apenas a si mesmo. Salvaria, indiretamente, e 90 anos depois, a minha vida.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O filófilo nosso de cada dia

O mundo nunca teve tantos pensadores ao preço de um. Assistir um filme por dia, dar pitaco nos enquadramentos e fazer referências a cenas de clássicos do cinema de vez em quando fazem de você, se não um cinélogo – se é que o termo cabe – um cinéfilo digno de um rótulo cult nas rodas de amigos, regadas a néctar de Baco.
A pressa é inimiga da perfeição, mas não ter defeito é um luxo que ninguém pode bancar. Os meios de comunicação pós-McLuhan desglamourizaram todo mundo. O sonho acabou: até em Hollywood se mostra o cofrinho.
Se a democratização da imperfeição torna os deuses menos divinos, também gritou um “passinho pra frente, por favor”, na primeira classe do Titanic. Vamos apertar, gente, que estão chegando mais “ófilos” que ilhas na terra de Aristóteles.
Se necessitas tocar nas chagas, Tomé, dê uma sapeada no Facebook, Twitter e outras redes sociais. Ninguém pousa serenamente a cabeça no travesseiro sem antes postar algo interessante, chocante, fofinho ou extasiante.
Em lugar de audiência, cada usuário mede sua popularidade pela repercussão das postagens, quantos comentários rendeu, quantas pessoas curtiram ou compartilharam.
Não é suficiente apenas viajar e conhecer um lugar incrível. Antes de desfazer as malas, ou até mesmo durante a viagem, é um prazer postar fotos do lugar e se sentir uma Adriane Galisteu na Revista Caras.
As festas também não são mais festas se não forem publicadas nas redes sociais. Tal procedimento é importantíssimo para que todos saibam o quanto você é querido. Olha quantos amigos você tem!
Nem tudo é mero brioche de Versalhes nessa corte virtual. As redes cumprem um importante papel de denúncia social, envolvendo mais a população em decisões importantes para toda a sociedade. A velocidade de propagação da informação traz em seu bojo espaço para sofismas e notícias não bem apuradas. Faz parte. Basta a cada dia o seu deslize.
Se a geração de Nelson Rodrigues fazia de tudo para zelar por sua privacidade, o jovem de hoje não liga muito para a superexposição e suas consequências, um terreno vastíssimo para a peneira das empresas, que utilizam as redes para seleção de candidatos, cruzando o que vêem com as informações oficiais contidas nos currículos.
Que maravilha as redes sociais! Se no passado a maioria chiava quando desafiada a redigir uma redação, hoje acha uma delícia se sentir um pouco poeta. Nas manhãs mais inspiradoras, compartilham o que sentem, seus valores, opiniões e indignações, mensagens otimistas ou chacoalhões, lembrando até fatos históricos que marcaram a humanidade.
Finais e inícios de ano são momentos cruciais. É quando as pessoas se sentem mais sensibilizadas. As redes superlotam de filósofos ou, num ousado neologismo, filófilos, sem-mestrado e sem-PHD.
Os que não foram abençoados pela pena de Camões parafraseiam. Dos parafraseados em língua portuguesa, talvez a campeã seja Clarice Lispector, que já disse por aí até o que ela nem sonhou dizer. Bom pra ela, que é plagiada ao contrário.
Para mim, entretanto, o mais delicioso é quando as redes lembram os aniversários. Você não tem mais que necessariamente lembrar do fulano. Não vai mais encarar expressões emburradas nem passar dias se desculpando. Entretanto, ainda estou tentado descobrir o mérito de se lembrar do aniversário de alguém porque o Facebook avisou. E aí são alguns segundos redigindo: “parabéns, muitas felicidades”, “ você é especial, continue assim”, “que seus sonhos se realizem” e coisas do tipo.
Que entrem as frases de pára-choque de caminhão, filosofia barata, afetação, informação, surpresa, diversão. Logo será politicamente incorreto dizer que eles não podem desfrutar da mesma seara de Carlos Drummond de Andrade.
Nossos filófilos, os filósofos sem diploma das redes sociais e blogs, na mesma linha dos enófilos que, sem nunca ter pisado numa faculdade, nos deliciam com suas pérolas emprestadas enquanto visitamos sua adega de vinhos, são um alívio, um soco no estômago da chatice institucional, dos senhores feudais e seus 90% de analfabetos, do manequísmo dos perfeitinhos bonzinhos perseguidos pelos mauzinhos. São de uma sinceridade cortante quando esfarelam nosso mar de ilusões e mostram quem realmente são, mesmo quando escancaram seu lado mais vibrante e elevado. Sirvo-me dessa taça sem medo. Não há suspiro de insinceridade que resista ao décimo gole.
Quem nunca deu uma espiadinha ou extravasou seu lado filófilo que atire a primeira pedra. Em tempo, e para não perder a prática: “Quem está ao sol e fecha os olhos começa a não saber o que é o sol e a pensar coisas cheias de calor/Mas abre os olhos e vê o sol e já não pode pensar mais nada/Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos de todos os filósofos e de todos os poetas”. Palavras de Fernando Pessoa. Gostou? Curta, comente, compartilhe.