segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

“Não há nada de novo sob o céu”


Davi, Rei de Israel, teve muitos filhos, a maioria deles, como ele, com muito sangue nas mãos, verdadeiros guerreiros nas diversas batalhas que solaparam o reinado e a vida de um dos personagens bíblicos mais importantes, a ponto de fazê-lo ter uma vida relativamente curta, em comparação com os demais relatados.
Os filhos que mostraram poderosos feitos na guerra certamente esperavam ser seu sucessor. Um deles, Absalão – dizia-se dele forte e bonito – liderou uma rebelião contra o próprio pai, querendo lhe usupar o trono mesmo antes dele morrer. Digamos que Davi até pode ter tentado, mas como chefe de família não foi lá aquelas maravilhas. E talvez a cada Ano Novo tenha lamentado os erros que cometeu. Ah... e como Davi lamentou. Davi não foi idiota o suficiente quanto tantos de hoje em dia que batem no peito pra dizer: “Não me arrependo de nada que fiz, só do que não fiz”. Não, Davi sabia no que tinha errado, mas tentava acertar, com todo o seu coração. Seus erros o torturavam como uma lança o atravessando de fora a fora, numa intensidade quase tão grande quanto o seu amor pelo Criador, e foi por isso que ele foi considerado um homem “segundo o coração de Deus”. Nossas ações o homem pode julgar, mas só Deus sonda os corações e as intenções.
                Voltando à filharada... o destino de Absalão foi a morte precoce, o que muito entristeceu a Davi. Mas os demais filhos talvez nunca tenham imaginado que o trono não iria para nenhum filho soldado. O trono foi para o filho poeta. O filho que Davi teve com Bathsheba: Salomão, o tal até hoje conhecido por sua riqueza e sabedoria.
                Salomão teve um reino tão próspero que atraiu a curiosidade dos reinos vizinhos e recebeu uma inusitada visita da Rainha de Sabá. Salomão viveu nababescamente e sua excentricidade inclui um amontoado de 300 mulheres e 700 concubinas. Em seu livro de Cantares, o poeta faz declarações de amor. Não se sabe ao certo quem foi que Salomão amou. Pois alguém com 1000 mulheres não ama nenhuma. É como aquela história do amigo entre 1000 do Facebook que nem sabe que você existe. De alguma forma a prosperidade material subiu à cabeça do Rei a ponto de ofuscar-lhe a visão para as coisas desta vida que realmente valem a pena. E é no livro de Eclesiastes, o que ele escreveu já no final da vida, que o poeta monarca destila todo o seu fel e amargura para com o que ele fez de sua vida. E muito do que lemos ali, quando ainda não acumulamos determinadas experiências, sequer podemos entender, como, por exemplo, quando ele diz que prefere estar num funeral do que numa festa. Só quem já viveu a dor do luto sabe que ela dói, mas, por outro lado, nos confronta com a mais absoluta das verdades e, para o cristão, a certeza da vitória de Cristo sobre a morte. Por outro lado, não se pode confiar na alegria passageira de uma festa, onde o vinho e a falsidade muitas vezes bebem da mesma fonte. Nessas horas nunca se pode saber quem é teu amigo de verdade. E com certeza Salomão se confrontou com ambas as realidades.
                Dentre tantos outros versos tão amargos quanto intrigantes, do mesmo livro em questão, está a famosa frase: “Não há nada de novo sob o sol”. E aí ele segue dizendo: “Tudo é canseira e enfado; tudo é correr atrás do vento; tudo é vaidade; tudo”.
                Passeando pelas ruínas lícias da costa da Turquia tive o prazer de contemplar os restos de uma civilização que floresceu antes de Cristo, em meio à exuberância da vegetação mediterrânea. Dentre estas ruínas, sepulcros de gente rica, já depredados. Dentro deles, o que restou? Poeira e algumas folhas aqui e ali. De fato, se aquele que ali foi enterrado era bonito ou feio, se ele se vestia de trapos ou do mais puro linho, que importa agora? Salomão estava, afinal, cheio da razão. Tudo é vaidade. É só uma questão de tempo.
                Mas e o novo? O novo que tanto procuramos? Salomão diz que não há nada novo sob o sol. Isso significa que, de uma certa forma, tirando os penduricalhos e os acessórios, na essência, através dos séculos, a humanidade nunca mudou de fato e se manteve repetindo os mesmos erros.
Por outro lado, quem (com mais de 30 anos), já experimentou a sensação de estar vivendo ano após ano uma certa rotina e aquele sentimento de que os acontecimentos ao redor de si se desdobram de forma cíclica: os calendários, as datas comemorativas, as tradições, as festas, os aniversários, os casamentos, as estações, as específicas épocas do ano, os eventos edição número 1, número 3, número 5.000, o Missão Impossível I, o II e III, o casa-separa, o volta-briga, o aperto de mãos-tapa na cara, o inimigo que virou amigo, o amigo que virou inimigo – e isso já está ficando mesmo previsível – as realidades que poderiam ser solucionadas mas nunca são, os mesmos problemas de sempre, no Brasil e no mundo, os protestos que não chegam a lugar nenhum, o mendigo que foi ajudado e já outro mendiga em seu lugar, o traficante que foi preso e já outro vende em seu lugar, o acidente cujos restos mortais já foram resgatados, mas na TV as notícias divulgam outro ainda pior. E é outro avião que caiu, outra celebridade que morreu, outro escândalo que não escandaliza mais, outra mulher fruta, outra moda inspirada em outra que foi inspirada em outra. A nova isso, a nova aquilo, que na realidade é a mesma coisa. A filha da Elis Regina, que canta igual a ela. O Roberto Carlos, que canta a mesma coisa todo ano. E a Xuxa, que... né? Não precisa nem falar nada.
                E vem novo carnê de IPTU. Novo? E vem nova lista de material escolar. Nova? E vem notícia ruim. De novo. E vem notícia boa, mas também temos saudades do passado. Afinal, há algo de novo sob o céu? E se há, será que realmente o buscamos ou só falamos isso da boca pra fora? Muita gente diz que gostaria de dar uma guinada, mas só o faz quando não tem mais alternativa. Então às vezes as coisas têm que acontecer à sua revelia, para o seu próprio bem, pra que o ‘novo’, não o que Salomão pensou que não tivesse mais, se estabeleça de fato e finque em sua biografia raízes que você agradecerá no futuro.
                Em 2014, não seja relutante a mudanças, receba-as de coração aberto, sem frustrações, sem preocupações, sem amargura, sem ingratidões, lutando contra a ansiedade e a descrença, mas sempre com o pé no chão, a fé em Deus e o coração puro. Em 2014, seja agradecido ao passado, mesmo que este passado, seja ele 2013, ou anos ainda anteriores, tenham te machucado tanto, pois em tudo – absolutamente tudo – há um lado positivo a se aproveitar. Não podemos mudar muitas coisas que a vida nos impõe, mas podemos decidir o que fazer com o que a vida nos impõe, de que maneira reagiremos, se a ética prevalecerá acima de tudo, se iremos ser fiéis ao que somos, ao que acreditamos, ao que temos de real e indissolúvel nesta vida, que é aquilo que, no final de todas as coisas, nos mostrará que, afinal, algo muito importante, um dia, se renovará.
                E agora eu quero falar do aniversariante do mês passado: Jesus Cristo. E finalizarei com uma frase que só poderia mesmo ter sido dita por ele e não por Salomão, que, apesar de rei, não passava de um homem comum. “Eu renovo todas as coisas”. Cristo é renovação. Renovação de vida. E vida eterna. Nada que ele muda pode ser mudado novamente, porque ele é o dono do presente, passado e futuro dos que Nele confiam e suas mudanças não podem ser corroídas pelo tempo.
                Neste mundo, realmente, tudo passa. E algumas coisas são cíclicas – voltam a acontecer. Nem sempre do mesmo jeito, mas podem voltar. Mas é preciso aprender a lidar com a finitude de algumas coisas e o começo de outras. Assim é a vida. E é preciso também estar aberta ao recomeço.
                O Jornal do Comércio foi um projeto magnífico de ser feito e após mais de quatro anos de sucesso, entra em recesso com esta edição. Deixará saudades nesta jornalista e espero eu que em muitos leitores – sei que é vaidade, mas deixem-me ter esta, que também passará por sinal. As vidas tanto da entidade quanto desta jornalista passarão por mudanças muito positivas. O Sindicato terá seus investimentos concentrados em prol do comerciante, numa escala de prioridade plenamente justificável – enquanto esta jornalista se dedicará a seu projeto solo, sua revista virtual (www.catanduvafashion.com) que é um sucesso e que já conta com o Sincomércio como um de seus parceiros. Ali o leitor poderá conferir notícias do comércio, além de dicas de moda, beleza, viagens, gastronomia, arquitetura, dentre outras editorias interessantes, a um clique de suas mãos. Viaje nessa ideia, que é nova, é fashion e vai se renovar a cada dia. Um grande abraço a todos, meus agradecimentos por este tempo de jornal e um Feliz 2014 a toda população de Catanduva e região, aos leitores (comerciantes, comerciários ou consumidores) e à equipe Sincomércio Catanduva.

Por que choras?

Por que choras?

Fim de ano é período de lembrar os fatos ocorridos nos 12 meses que transcorreram. E certamente boa parte deles não foi recheada de experiências prazerosas, para grande parte da população.
Na nossa sociedade onde a felicidade é pré-fabricada, vendida e embalada pra presente, onde a superficialidade toma o lugar da reflexão e análise de realidades, ficar melancólico ou triste é algo inaceitável. É como se comemorar e festejar fosse uma obrigação, enquanto lembrar do passado fosse algo condenável digno somente dos perdedores. Mas há algo de muito importante a se dizer a esse respeito.
Uma das maiores perdas para um ser humano e razão do mais alto grau de estresse e depressão é a perda de um ente querido, conforme pesquisas atestadas por profissionais das áreas de psicologia e psiquiatria. Certamente que muitos perderam não somente dinheiro, emprego, bens ou amizades, este ano, mas também pessoas amadas, que vieram a falecer.
Pessoas que lidam com o luto são muitas vezes, nessas épocas do ano, compelidas a forçar uma alegria que não estão sentindo, dando ouvidos a frases feitas que as encorajam a ir em frente, pensar só no futuro e esquecer o passado. A maior parte de tais comentários repetidos à exaustão está mascarada de boa intenção, mas a verdade é que os outros preferem não ter de lidar com os sentimentos complexos e duros de quem está passando por um momento de profunda dor.
Lembrar-se de quem amamos e se foi deste mundo não é auto-comiseração, mas sim ter orgulho de um passado que fez quem nós somos.
As rochas frias não são conscientes dos golpes incessantes recebidos do mar, por isso também não podem saber o quanto são belas.
As árvores retorcidas pelo chicotear do vento, ao longo de seu crescimento, subsistem sem se dar conta do encantamento que são capazes de suscitar.
As lagunas transparentes aprisionadas nos anéis de corais já não se lembram de quando a terra foi rasgada sem dó nem piedade por um colossal vulcão e tampouco se recordam de quando este mesmo vulcão foi pouco a pouco sendo engolido pela mesma força que lhe fez brotar.
Quando estão adornando um pescoço qualquer, as pérolas não podem contar a dor que se fez presente no interior das ostras, mas seu brilho testemunha o sofrimento agonizante de um ser vivo lutando para se proteger de um intruso e que fez um esforço descomunal para envolver a substância causadora da dor em camadas e camadas de nácar. As ostras certamente sabem o que fazer com a dor delas, mas o resultado dessa dor é para sempre lembrado como algo belo.
Entretanto, é relegado apenas a nós, seres humanos, o prazer de contemplar todas as coisas e admirar a beleza da criação e do que foi moldado pelo sofrimento.
Herdamos do divino a consciência do belo e o prazer da contemplação, “pois viu Deus tudo quanto criara e eis que era muito bom”.
Ele, ciente de tudo, certamente sabia que seu coração seria ferido pelo homem, incontáveis vezes, mas persistiu no plano de mandar seu filho em sacrifício pela nossa remissão, para que Nele, por Ele e para Ele fossem todas as coisas e nenhum sofrimento em vão, se Nele somos mais que vencedores. O capítulo final certamente vale a pena.
Deus, como nós, se lembra de tudo, se alegra, ama e sofre. Não sofreríamos também nós?
Nossa missão na Terra, muitas vezes, é mostrar o que persiste quando milagres não acontecem, quando nada anti-natural freia a força do vento ou das ondas do mar. Só assim a beleza da fé pode ser revelada. O milagre maior é sobreviver em meio às adversidades. Nossa gratidão por uma graça imerecida se revela no amor que ainda podemos dispensar, através de nossas atitudes e, apesar das dores acumuladas, mostrar que ainda podemos sorrir, viver e fazer brilhar em nós aquele que venceu o mundo e manter acesa a chama da esperança e da bondade, para que outros tenham o prazer de contemplar a beleza das rochas, das árvores, das ilhas, das pérolas e das nossas vidas.
Tudo que é belo ou tem qualquer significância no mundo, ontem e hoje, foi produzido pela dor, do contato íntimo com a vida, no mergulho em seus mais profundos recônditos e não no boiar confortável em sua superfície.
Só então podemos repetir a Deus as palavras de Jó: “Antes te conhecia de ouvir falar, mas agora meus olhos te vêem”.
Ver é consciência. Ver não é ilusão. Ver não é negação. Ver não é esquecimento. Ver não é finito. Ver não é limitado. Ver é contemplar. Ver é sentir. Só quem sabe ver, sabe compreender e amar. Consegue então exalar o perfume da essência de Deus, que é o amor. O amor que “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade”.
É por isso que o amor não esquece jamais. É por isso que quem sofre não morre de verdade. É por isso que quem não é capaz de amar pode até viver sem sofrer, mas nunca terá existido de verdade, nem subsistirá.
Porque não há dom mais precioso que o amor. Porque “ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, se não tivesse amor, nada seria. Seria como o sino que ressoa”, feito de ferro frio e sem vida, capaz apenas de repercutir o impacto de uma força exterior, sem ter nunca nada a dizer. Iguala-se, assim, às rochas frias. Tão belas e tão tristes. Como é triste não saber! E mais triste que perder é esquecer.
Lembrar pode doer porque conhecemos em parte. Quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será aniquilado. Agora vemos como por um espelho, mas então veremos face a face.

Agora conheço em parte, por isso sofro, mas conhecerei como se deve, se em mim permanecer o amor. Em 2014, faça tudo com amor. O amor pode não te poupar do sofrimento, mas certamente te livrará da verdadeira morte.

sábado, 23 de novembro de 2013

Feridas na alma



As feridas na carne são facilmente visíveis, mas as doenças da mente e da alma facilmente incompreendidas. Depressão não é frescura, falta de fé ou influência de espíritos malignos, como ainda afirmam alguns. Depressão é uma doença psicológica, e por isso mesmo invisível aos olhos humanos, capaz de enganar mesmo quando tudo parece estar bem e capaz de provocar danos no cérebro, mesmo quando tudo parece ter voltado ao normal.
Depressão pode ser causada por grandes ou pequenos traumas, pois cada pessoa é diferente e cada vivência e reação acontecem em diferentes níveis, e até mesmo pode não ter causa nenhuma aparente. Há pessoas comprovadamente e biologicamente mais suscetíveis à depressão do que outras. Orações, terapia, medicamentos, sol, exercícios, viagens, amor... tudo isso é capaz de ajudar o depressivo, pois a depressão tem cura. Depressão não é tristeza. Todo mundo tem dias que está mais triste e isso não significa que está com depressão. A depressão é uma tristeza profunda, uma agonia que inunda a alma que parece não ter fim e só quem já teve sabe o que é. Infelizmente, sofre o estigma das doenças invisíveis.
Ninguém pode ver o quanto estamos machucados por dentro. Não é como um câncer que definha a pessoa. Não é como uma lepra que mutila o corpo. Não é como uma pneumonia que torna a pessoa ofegante. Não é como uma tuberculose que faz a pessoa tossir sangue. A depressão não tem nenhuma forma material para se mostrar e é por isso que os depressivos sofrem tanto preconceito quando sofrem dos sintomas diversos da depressão, que não são apenas choro e ansiedade, mas também podem aparecer sob a forma de perda de energia ou agressividade, além de várias outras reações, que tornam o depressivo companhia indesejável e por isso ele se isola. Ele se isola não porque não goste das pessoas, mas porque já está cansado de frases feitas e porque não quer ser má companhia para ninguém e nem o cansaço de forçar uma alegria que não existe.
Ainda persiste um estigma muito grande para com as pessoas que sofrem com alguma forma de doença mental ou psicológica. Entretanto, e curiosamente, o mesmo estigma não paira sobre os que demonstram o contrário: ausência total de sentimentos.
Os depressivos são pessoas com tendência a serem mais frágeis e sensíveis à própria dor e à dor dos outros. São pessoas que pensam demais, que querem respostas demais, que se sentem impotentes quando não podem mudar realidades injustas que estão machucando os outros, por dentro e por fora.
Infelizmente, nossa sociedade, a mesma que rotula os depressivos de fracos, é regida por psicopatas e atravessa um perigoso processo de "psicopatização".
O psicopata não necessariamente é um assassino serial. A maioria, aliás, não é. Eles podem se tornar assassinos dependendo de seu histórico de vida, mas a maioria simplesmente é caracterizada pela frieza de sentimentos, individualismo, egoísmo, preocupação consigo mesmo acima de tudo, dificuldade de se relacionar com o outro e estabelecer um elo sentimental com ele. O psicopata não sofre com a dor do outro, por isso não tem tempo a perder. O psicopata não tem dramas que o afligem para o tirar de seu verdadeiro foco: vencer na vida, acima de tudo, ainda que isso signifique mentir e passar por cima de quem seja. Não é à toa que temos hoje psicopatas em cargos de liderança nos mais altos graus da nossa política e economia. Psicopatas são os poderosos do mundo, pois só eles não tem sentimentos pra lhes embaçar a sua missão de ser o primeiro, sempre o vitorioso, sempre na frente. Sentimentos só atrapalham. Amar faz sofrer. Chorar não adianta nada, nem leva ninguém "pra frente", mas quem tem sentimentos simplesmente não consegue ser diferente. Porque ou se tem ou não se tem sentimentos. E também há níveis de empatia. Há pessoas que são capazes de se conectar sentimentalmente com seus mais próximos: filhos, marido, mulher, pai, mãe, amigos até, etc. Outros são dotados de um grau maior de empatia, são capazes de sentir a dor do outro, são capazes de sentir até o ambiente, se entristecem com a própria sociedade decrépita que os rodeia e se mortificam com a impotência para mudar realidades que os psicopatas lhes roubaram, enquanto eles, os depressivos, estavam "distraídos" com os próprios sentimentos.
Sim, neste mundo, parece que os maus sempre levam a melhor, porque eles não pensam duas vezes antes de trapacear. Por isso estão sempre na frente. Os bons são regidos por leis éticas, morais e sentimentais. Fala mais alto o coração e isso pode atrapalhar o seu sucesso no mundo.
Entretanto, sentir demais não deve ser motivo de vergonha. Este mundo cada vez mais cheio de psicopatas, de brilhantes economistas, banqueiros, administradores, engenheiros... vai precisar de poetas, artistas, filósofos, músicos, escritores, enfermeiros e médicos que se dedicam de corpo e alma e outras pessoas que tem uma missão na terra, que é fazer a diferença. Eles serão a luz do mundo. Eles serão o sal da Terra. E por causa deles nem tudo estará perdido.
O mundo caminha para um caos, mas a maioria dá de ombros como se isso não tivesse nada a ver com eles. Graças a Deus, o coração de alguns ainda queima por causa das injustiças e das tristezas e isso os compele a lutar a fazer algo, mesmo em meio a dor.
O mundo vai precisar de quem é capaz de sentir dor. Não só a própria, mas a dos outros.
O mundo vai precisar de gente que fala olhando nos olhos, que fala com o coração e que não tem vergonha de chorar.
Podemos não ser tão vitoriosos no material sentido da palavra, agindo com o coração, mas para os que verdadeiramente agem com o coração, o ser vitorioso não tem a mesma importância que tem para o psicopata.
E é por isso que apesar de considerar grave esta epidemia de depressão, não acredito que a depressão seja a doença do século 21. Foi a do século 20. A doença do século 21 é a psicopatia, disfarçada de obsessão pela vitória e competitividade, mantida com os convivas de revistas onde o máximo de profundidade que são capazes de chegar é a profundidade de suas próprias jacuzzis.
Talvez não devamos curar todos os tristes, mas apenas mantê-los sãos e decididos a continuar lutando, porque o mundo precisa mais dos tristes que dos alegres. O mundo precisa mais de quem entende da dor deles do que dos que sequer sabem do que você está falando.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A Adúltera

"Aquele que não tiver pecado que atire a primeira pedra", disse Jesus quando lhe trouxeram a mulher adúltera para ser apedrejada.
Interessante notar que eles tiveram que insistir na pergunta sobre o que ele sugeriria que se fizesse com a mulher. Quando jogaram a mulher no meio do povo, em frente a Jesus, ele, como se diz no popular, "não deu nem tchum", literalmente ignorou a cambada de hipócritas, continuando a escrever na areia. E assim, "como insistiram muito na pergunta", Jesus respondeu.
Sempre imagino como deve ter sido difícil pro filho de Deus, tão cheio de sabedoria, lidar com tanta estupidez.
Importante ressaltar que Jesus não era condescendente com o adultério. Muito pelo contrário, era tão rigoroso a esse respeito que chegou a ressaltar que se um homem olhasse pra outra mulher com pensamento impuro já teria adulterado com ela. Entretanto, aquela não era a questão ali. Aqueles homens que trouxeram a mulher adúltera até Jesus intencionavam, com isso, testar Jesus, para colocá-lo "em maus lençois", visto que pela lei de Moisés o crime de adultério deveria ser punido com o apedrejamento, mas pela lei de Roma, a qual os judeus estavam sujeitos, só Roma poderia condenar alguém à morte.
Assim, não importando a decisão de Jesus, se dissesse que 'sim, apedrejem' ou que 'não, perdoem-na', ele estaria numa situação delicada, pois ou estaria infringindo a lei de Moisés ou afrontando a César.
Mas Jesus, que sonda os corações, sabia da intenção maliciosa e parcialidade daqueles judeus, que nem sequer levaram o homem com o qual ela adulterava (a lei de Moisés previa mesma punição para ambos), mas somente a mulher fora acusada.
Jesus não aprovou a atitude da mulher adúltera, tanto que ao final disse "não te condeno, mas vá e não peques mais", mas não fez diferença entre o erro de um e de outro. Ele não disse "aquele que não adulterou, atire a primeira pedra", mas sim "aquele que não tiver pecado". E a Bíblia fala que todos, um a um, a começar dos mais velhos até os mais novos, foram se retirando.
Quem de nós pode se afirmar perfeito? Mas Jesus é perfeito e tem poder para perdoar pecados, como o fez com aquela mulher.
Hoje também vemos muita hipocrisia dentro e fora das igrejas, com os mais diversos tipos de pecados, desde enriquecimento ilícito até a própria falta de amor, que traz em seu bojo uma série de erros, que é a maledicência, a soberba, a ingratidão, a fofoca, a hipocrisia, a malícia, a vaidade, o orgulho, a maldade, o semear de contenda entre irmãos, a falta de compromisso, a falta de sentir a dor do outro, a falta de caridade.
Os primeiros cristãos tinham tudo em comum, sentavam-se no chão para ouvir as escrituras e escondiam-se em cavernas, fugindo da perseguição que não raras vezes acabava em morte, após torturas indizíveis.
Hoje vamos à igreja e tem gente reclamando da cor do tecido que escolheram para o estofado da cadeira. Eu posso com isso?
O que o senhor acha, Jesus, da cor do estofado da cadeira? Sinceramente? Ele continuaria fazendo ouvidos de mercador, e continuaria escrevendo na areia...

sábado, 16 de novembro de 2013

Celebrar Proclamação da República ou Finados?

Esta semana comemoramos o Dia da Proclamação da República, mas o que temos a comemorar? Ah, sim, lembrei... nos livramos do rei Dom Pedro II, certo?
Então um pouquinho de História para os que pensam que o Brasil se deu muito bem com essa troca.
Se na época do império quem minerava o ouro deveria pagar 1/5 para a Coroa Portuguesa, hoje, de acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, a carga tributária brasileira chega a quase 40% do PIB, ou praticamente dois quintos de nossa produção. Assim, a carga tributária que nos aflige é de praticamente o dobro daquela exigida por Portugal à época da Inconfidência Mineira, o que significa que pagamos hoje "dois quintos dos infernos".
Dom Pedro II, o rei que foi deposto e expulso do país, após um golpe militar do qual o povo não tomou parte e que foi feito por pura sede de poder, governou o Brasil por 49 anos e nos últimos anos de seu governo era sorrateiramente atacado pela imprensa marrom, que manipulava a opinião pública.
Ainda hoje, Dom Pedro II é um dos políticos mais admirados do cenário nacional, e é lembrado pela defesa à integridade da nação, ao incentivo à educação e cultura, pela defesa à abolição da escravidão e pela diplomacia e relações com personalidades internacionais, sendo considerado um príncipe filósofo por Lamartine, um neto de Marco Aurélio por Victor Hugo e um homem de ciência por Louis Pasteur e ganhando a admiração de pensadores como Charles Darwin, Richard Wagner, Henry Wadsworth Longfellow e Friedrich Nietzsche. 

Durante todo o seu reinado, o Brasil viveu um período de estabilidade e desenvolvimento econômico e grande valorização da cultura, além de utilizar o patriotismo como força de defesa à integridade nacional. 
O último imperador do Brasil construiu em torno de si uma aura de simpatia e confiança entre os brasileiros.
Dom Pedro II amava tanto o Brasil, que pouco antes de morrer, no exílio, na França, ele pediu para que colocassem um pouco de terra do Brasil em seu caixão (não consigo imaginar nenhum político brasileiro com tal patriotismo).
A foto que você vê abaixo é dos sobreviventes do massacre de Canudos, cometido durante a... REPÚBLICA! Isso mesmo. Canudos era uma comunidade pacífica de sertanejos pobres que ali tentavam sobreviver e, logicamente, não pagavam impostos.
O governo da República recém-instaurada precisava de dinheiro para materializar seus planos, e só se fazia presente no Sertão pela cobrança de impostos. A escravidão havia acabado poucos anos antes no país, e pelas estradas e sertões, grupos de ex-escravos vagavam, excluídos do acesso à terra e com reduzidas oportunidades de trabalho. Assim como os caboclos sertanejos, essa gente paupérrima agrupou-se em torno do discurso do peregrino Antônio Conselheiro, acreditando que ele poderia libertá-los da situação de extrema pobreza.
O exército brasileiro exterminou essa comunidade, inclusive mulheres e crianças. Esta é a foto de quem sobrou. Não se tem notícia de que tamanha chacina tenha sido cometida no governo de Dom Pedro II, o tal do qual nos livramos para agora "celebrarmos" a república. Eh! Viva!
Honestamente? Eu não tenho nada a comemorar. Principalmente quando olho pra Brasília e vejo corrupção, políticos como José Dirceu em meio a tantos outros saindo ilesos de seus crimes contra a nação, colocando NOSSO dinheiro na Suíça, como fez Maluf, que é procurado pela Interpol, e tantos outros.
Se antes tínhamos apenas uma família real, hoje temos centenas de deputados e senadores que não amam o Brasil, nem os brasileiros, somente a si próprios, que jogam milhões de nossa fortuna pelo ralo e sugam a nossa força de trabalho, como sanguessugas traiçoeiras, a pior raça que poderíamos imaginar para o governo do nosso querido Brasil.
Dia da Proclamação da República? Pra mim está mais pra Dia de Finados.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mortes no trânsito

Existe algo de muito doentio em mães que protegem demais seus filhos, privando-os de qualquer dissabor, de qualquer "não", e mentindo pra eles quando eles não são tão bons em algo, simplesmente pra não lhes "abalar a auto-estima".
Tenho visto muitos acidentes no Brasil. Muita gente morta por filhos mimados na faixa dos 18 aos 21 anos, como foi o caso recente acontecido em rodovia próxima a Catanduva, que terminou na morte de uma menininha de 8 anos.
Nesses casos, geralmente o infrator é acusado de "homicídio culposo" (sem dolo, sem intenção). Felizmente, tenho visto uma tendência de os promotores entenderem o ato como homicídio doloso, com intenção de matar, considerando que a pessoa que dirige bêbada ou que dirige imprudentemente está ciente dos riscos e de que pode matar alguém.
A resposta da mãe do homicida ao saber que o filho continuaria preso? "É o que dá ser honesto. Meu filho não fugiu, ficou lá".
Ah... entendi... era pra ele ter fugido, né, mamãe, conforme a "senhora" certamente o ensinou e o acobertou todos esses anos. Mas acredito que pelo trauma de ver a menina morta, desta vez ele não pôde. O filho, afinal, superou o senso ético e moral da mãe.
E então me lembrei de que quem vinha me pagar a indenização pela morte do meu marido (cerca de 1000 reais em 10x), todos os meses, não foi o acusado de homicídio culposo (acidente acontecido em 2006). Foi a mãe dele, todos os meses, em mais uma tentativa de proteger o filho de mais esse "dissabor". Ele nunca teve a coragem de me encarar pra me falar a verdade e pedir perdão como se deve. Mesmo assim eu é que tive que tomar a iniciativa e dizer que já o tinha perdoado, mas eu sei bem a diferença entre arrependimento e remorso. E sei que muitos não sentem nem isso. Só sentem pena de si mesmos. "Coitadinho... está preso... não teve a intenção".
Coitado é quem perde um pai, uma mãe, um filho, um marido, qualquer amor que seja.
Acredito que a dor no peito por causar tamanha dor a alguém a mim só seria aumentada se eu não recebesse qualquer tipo de punição. O normal de alguém que causa dor a outro é tentar pagar e fazer o máximo possível pra amenizar essa culpa, pra melhorar a vida de quem ela prejudicou. Mas infelizmente o que vemos no Brasil são pais lenientes e filhos abobados, prontos a usar o carro como arma, pra tirar a vida de quem faz tanta falta neste mundo.
Eu espero que os "acidentes", que não são, nem nunca foram, meros acidentes, e sim atos de irresponsabilidade que culminam em assassinato, comecem a ser punidos com o mesmo rigor de quem porta arma sem autorização e por consequência fere alguém com isso.
A população está "desarmada". Será? E esses carros por aí afora, fazendo mais e mais vítimas e entupindo os hospitais? A vida tem que ter valor. E só vai ter valor quando eles pagarem. E caro.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O telefone e eu



O meu telefone celular é mesozóico. Logo logo estarei colocando ele no e-Bay pra colecionador de antiguidades. Ele não faz nada - quero dizer, não tira foto, não filma, não conecta internet, não dança, não representa, nem sapateia - mas todo mundo me acha nele. Sem falar que ele já caiu no chão 100 vezes e o bichinho resiste. Já dizia a minha avó: vaso ruim não quebra. Ele também tem habilidades sobrenaturais. Ele é médium. Só recebe. E eu tenho sobrevivido. Não é que eu não goste de tecnologia. Eu gosto dessa proximidade que a internet nos traz, da velocidade de informações, etc, mas ninguém até hoje conseguiu me convencer a comprar um celular caríssimo com mil e uma utilidades. E quando alguém vem todo pomposo me mostrar o celular novo eu me esforço pra fazer cara de AHHHHH OOOOOH. Eu tento imaginar que aquela coisa sem graça, cinza, é um anel de pérola negra ou um colar de esmeraldas, sei lá.
Sei que ontem a Claro me mandou uma mensagem dizendo que se eu não pusesse crédito eles cancelariam meu número. Comprei 8 reais na Banca do Rossi e tenho que ligar pra "alguéns" até dia 7 de julho. Mas, meu Deus, pra quem vou ligar? No trabalho uso telefone da empresa. Em casa uso o fixo ou falo pela internet. Em casa quero sossego e ver meus filmes (me liguem em caso de emergência só, tá?). Pra quem vou ligar, santo pai? Estou pensando seriamente neste assunto... Por isso não estranhe se eu ligar pra você com uma conversa assim: "tá calor hoje, hein?". Ou então: "e aí, tudo bem?". Eu não sou tão altruísta assim. Só odeio desperdício. Quero aproveitar os benditos 8 reais que eu gastei sem querer.
Aí eu olho pra Norma Jean glamourosa fazendo a maior pose com esse telefonão de fio de rabo de porco, como se atender um telefone fosse um a-con-te-ci-men-to (e era) e eu sinto um banzo... mas um banzo... Saudade do que nunca vivi, né, porque enquanto ela atendia esse telefone minha existência pululava em algum lugar do cosmos esperando a hora certa de encher a pança da dona Tereza.
Eu só queria que o telefone às vezes voltasse a ser um acontecimento, aquele trimmmmm hitchcockiano, aquele reeeeeec reeeeeeeec daquele círculo de plástico rodando enquanto a gente discava os números naquele telefone arredondado. O chic era ter o quadradinho. Não, pensando melhor, o chic era ter aqueles de novela que a Odette Hoitmann abria aquela partezinha dobrada pra poder falar. Ufff o ápice da modernidade. A cara da riqueza. E hoje a gente ri disso. Pois bem. Vão rir de vocês também, viciados em celular, tablet ou sei lá que coisa mais.
Mas pra finalizar eu só queria... eu só queria mesmo que a gente pudesse voltar a ter uma conversa decente olho no olho sem ser interrompido pelo Luan Santana se esgoelando no celular. Eu só queria me reunir com meus amigos em volta duma mesa de bar, contar histórias, filosofar, rir, em vez de falar com as paredes enquanto todo mundo com seus respectivos aparelhos checa e responde mensagens.
Eu só queria mas... peraí, meu telefone tá tocando. Volto já.